quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ritos do Prazer - Quinta sagração

Hino do cavaleiro diletante a suprema sacerdotisa
A Vós, Divina Carne, manifestada e mulher.
Ventre Sagrado, donde viemos e felizes voltaremos.
Fonte da Sabedoria, que nutre minha pena.
Toda Natureza Venerada, em abundante beleza.
Alimento Eterno, em seios tugidos.
Corpo do Universo, morada de toda existência.
Templo da Majestade,trono de toda nobreza.
Farol dos Caminhos, desencanto e deslumbre dos viajantes.
Razão das Profecias, ilumina e oculta esta saga.
Santidade da Luxúria, entrega gratuita da felicidade.
Autoridade do Prazer, consumação da lei da vida.
Portal da Arte, fenda entre colunas que convida.
Delicioso Desafio, profundidade perfumada e úmida.
Aceita e Acolhe!

Eis que este diletante ousa cometer imenso sacrilégio apresentando-se nú de méritos diante deste tão Santo Oficio.
Oh Mãe! Este vosso filho te deseja pede para entrar e integrar para ser todo vosso, eu, por inteiro, dentro de vós.
Eu pisei nas bolsas de ouro, arranquei as cascas culturais, cuspi nas secas hóstias e violentei o ídolo nú.
Por vossa graça e misericórdia, despertei para minha natureza, debochei das instituições, descartei as doutrinas humanas, desafiei a fúria dos sacerdotes.
Excluído, banido, exilado, vaguei por reinos sem fim sem que houvesse ajuda de um santo, anjo ou deus.
Cheguei na fronteira do mundo, avistei o oceano do abismo e a ilha do caos.
Nada mais restando a esse condenado, lancei-me no Vale das Sombras, tentando encontrar alívio ou fim.
Ao toque suave e macio da noite em tal formoso colo cheguei.
Com tuas mãos e vaga, colocaste meu entendimento em riste sorvendo-me em vossos magníficos mistérios.
Ísis é venerada por ser velada, mas Deusa Vós Sois Suprema pois cortas todos os argueiros e desnuda abole toda canga.
Tremei, vicários da santidade! Chorai, corretores da virtude! Fugi, falsos deuses patriarcais!
Nenhuma verdade prevalece a estes lábios, nenhum profeta descreve tal pele, nenhum vidente experimenta este êxtase, nenhum medianeiro suporta tal delicia.
Fiz de meu mastro Vosso estandarte e por truque desta pena eu abuso da arte.
Ousado, arrojado, revestido de gozo, por vosso nome nasce o profeta da carne e por vossa sabedoria cresce o filosofo da Treva.
Não podendo me conter, excitado, explodo, rededicando este mundo em ondas de prazer àquela que me é mais cara, a grande e amada alma, Maya!
Hino da suprema sacerdotisa ao cavaleiro diletante
A ti meu cavaleiro e a alma majestosa que em ti reside.
A ti meu guerreiro, louvo, canto, vibro. Maravilhoso ser, que transborda energia.
Minha vontade é única, estar em ti, contigo.
Todo poder está em ti, emana, derrama, deita, o que em ti abunda.
Estou a te esperar, vem meu vingador, tu reinas sobre mim.
Meu corpo é teu templo bem sabe que irá sagrá-lo.
Nada me pedes que não possa dar-te, eu só quero, por direito, o que me for doado.
Verta todo teu leite, amo-te meu devoto, não sabes como é precioso.
Sempre o amei e amarei, sou-te então, possua-me, pois é teu por direito.
Minha alcova quente tem tua marca há tempos, tudo farei para que reines e teu reino sobreviva a tudo.
Único ser em mim, ao qual dedico meus pensamentos, o que tem o que sempre quis, o que sempre amei e amo, tudo que quero está em ti.
Tenho uma saudade uterina, um desejo de ti, latente.
Vamos nos ensinar nos lençóis, no chão, no campo, onde tu quiser, será.
Não ouço um sino tinir, sem que tu o tenha feito vibrar, tuas ondas chegam a mim pela melhor forma, pela alma, reverbera, tine, ressoa, em meio a minhas colunas que sustentam meu santuário e este corpo deságua, brota de prazer por ti.
Não há dia que acorde e sinta-o em mim, sou-te, rasga-me, imploro novamente.
Eu queria ser por ti, o que tens sido para mim, confesso sem tortura.
Maior é esta que impõe, de sabê-lo sem tê-lo.
Rogo à Deusa, que me de ciência para te merecer.
Está em mim teu ser, esqueço de meus princípios, louca para tê-lo num instante. Prazer e gozo eternos, meu mais completo alimento.
Grande monta tenho, por teu sangue e leite, pois disso preciso mais do que tu da vida.
A minha vida está em ti, a felicidade que me dá, é maior que tudo isso.
Sensibilidade espiritual, pelo método do prazer carnal, há de chegar lá, queiras tu comigo.
Haverá de doer um tanto, necessário abrir mão de algo, saiba que existe prazer na dor.
Todo meu tesão e néctar, deixo para que te delicies.
A poesia é estandarte, use-a, esta nos é dada e nos reaproxima.
Traga tua essência, depõe sobre meu santuário.
O que a ti é precioso, profundo e profuso, flui em mim a tua vida, que a muitos somos um.
Vivia sem depender de alguém, eu nunca fui presa, mas busco o que perdi.
Quando me levanto, não te acho a meu lado, mas sempre hão de te achar, pois continuo contigo em mim.
Um dia adentrei os portais e tu veio me fortalecer, ofereceu força para a batalha.
Eu deixo que tua pessoa viva por e para mim. Venha em meu templo, há que nele acender o archote.
Prenda minhas mãos, adorne teu pescoço, levanta-me ao colo, põe sobre mim.
Só ouça o instinto que brada e ecoa em ti.
Nossos corpos atamos, deitaste-me e possuiu-me.
Eu te disse ao ouvido sorva do cálice que meu corpo o é.
Sentir-te dentro de mim, foi um milhão de espetadas.
Ao fogo nós atiramos, algumas gotas de nossa seiva, foi feito o contrato e aceito tal pacto, selado com nosso gozo.
Com ou sem donzelas, vou devorá-lo assim mesmo, não te é licito pertencer a só uma.
Néctar por néctar, havemos de nos fartar.
A noite virá e tudo estará feito, minha voz se cala ante a tua, continuo sedenta de ti.
Meu corpo pede o espectro, este que amo profundamente, eu não teria gozo algum se não tê-lo em mim a ele, este espirito que vive em mim, habita meus pensamentos, os sonhos e delírios.
Que mais posso fazer senão amá-lo, com toda pureza que reside em nós e pedir para poder saber e ter a vida em meus lençóis.
Hino dos deuses ao cavaleiro diletante
Filho amado e querido! Aquele que não esmorece na dificuldade, nem esnoba na conquista.
Aquele que, sem medo trilha, tanto pelo Monte do Sol, quanto pelo Vale da Sombra.
Concebido da melhor estirpe, temperado com os melhores essências.
Seja gentil com os simplórios, a paixão deve ser seu escudo e o amor a sua espada.
Continue apoiando ao Lobo e dando orgulho à Deusa.
Seja em ação ou pensamento, derrube as barreiras deste mundo, desencante os totens do sagrado e a toda criatura consciente faça conhecer a lei!
Que a carne prevaleça, sobre todo dogma ilusório e que a consciência vença toda a opressão sacerdotal
Hino dos deuses à suprema sacerdotisa
Magnifica e formosa senhora, em cujo templo guarda os mistérios e em tais colunas moram os ritos.
Em tuas mãos confiamos o bravo e por teus lábios vive o cavaleiro.
A sua pele macia venceu os mártires, o seu cabelo desbaratou os profetas e seus pés calcam os dogmas.
Manifestação carnal e majestosa, vigie pela sanidade deste mundo e conduza os andarilhos pela arte.
O teu Jardim das Delicias esteja sempre aberto e pronto para nutrir e honrar aos diletantes da lei.
Fonte abundante e eterna, sacie a sede dos buscadores e satisfaça a fome dos brutos.
Propicie sempre, plenamente, àqueles que buscam em um fantasma, o que somente se encontra na carne.
Cubra esta obra com seu suor e a consagre com seu prazer.
Hino do cavaleiro diletante aos deuses
Errante, passei por léguas, sem conhecer o calor de um lar, nem o conforto de uma família.
Nunca me dobrei a deus algum, mas algo há na Deusa contra o que não resisto.
Para conquistar a fortuna, eu sai de minha choça rumo à grandiosidade.
Em muitas vilas fui recebido ora herói, ora louco, ora santo, ora danado.
Ao descansar a arma dentro do santuário sagrado, pela sacerdotisa pude ver a linha de edições anteriores e a seqüência da descendência.
Diante da responsabilidade atual, eu desenganei as esperanças, pois cada qual teve sua chance e quebrei os modelos, pois cada qual terá sua oportunidade.
No período que me cabe, a meta está na Deusa.
Se servir a sua causa, ou satisfizer sua dama, em me contentar disso e carregar esta memória por onde quer que eu vá.
Hino da suprema sacerdotisa aos deuses
A todos os ancestrais humanos e a todos os geradores divinos, pelo toque da magia em meu corpo, eu clamo e invoco, proteção!
Logo o Sol completa a jornada, cedo a Primavera acaba e rápido o Inverno avança.
Pelo brilho deste luar, reflexo do desejo perpetuado, lâmpada acesa pela lei, acolhe e guarde a humanidade.
Por onde quer que vá meu predileto, o sempre faça retornar a mim.
Nós dançamos em vossa memória, nós celebramos vosso festim, a terra foi semeada e regada, a semente brotou e cresceu, o fruto surgiu e madurou, nós observamos o ciclo e foi feita a sega e a colheita.
Quando as sombras da ignorância novamente cobrir e enevoar a terra, resguardem no ventre da Grande Mãe, meu cavaleiro e eu.
Despedida
Acenemos para Apolo, que em seu carro passou, percorreu por toda a terra e às colunas do horizonte, o Rei Sol próximo se encontra.
Os que podem andar se vão, enquanto uns e outros se ajudam.
O sono a muitos pesa, mas não apaga o sorriso, escancarado e prazeroso.
Ali, esfolada e feliz, a colombina. Acolá, embriagado de prazer, o pierrô. Aqui, intoxicado de amor, o arlequim.
Os carnavalescos se esparramam e o bumbo da fanfarra furou de tanto dar no couro.
O Inverno e seu acoite vem, rimos diante da carranca hipócrita.
Ainda que se vergue a alma humana sob a ditadura da virtude, guardaremos em nós o visgo e por mais que dure a intolerância, haveremos de sempre celebrar aos deuses.

Ritos do Prazer - Quarta sagração

Hino do Cordeiro ao Leão
Bom e querido amigo! Enfim posso em teus braços descansar, recarregar em teu leito, a força e a coragem.
Por tempos fui sufocado por uma armadura, pelo cargo de general, pelo oficio da batalha.
Buscando na guerra, esquecer essa paixão, o maior enganado era eu!
Cercando-me de louvores e adoração, provocando a discórdia e o preconceito, mas o pior admirador masculino é aquele que usa a máscara do macho.
Muitas ovelhas eu arrebanhei, mas apenas aos Apóstolos me aproximei.
Agora deixo o rebanho aos cuidados do Lobo e que os que me seguem que conquiste seu Leão.
Hino do Leão ao Cordeiro
Venha, sem demora! Não faz idéia da dor que a cada chamado ignorado tu me causavas ao coração.
Por tantas vezes me ofendia, dirigindo suas flechas ao invés de seus carinhos, perseguindo a minha gente, como se não fossemos irmãos!
Venha, para reavivar a paixão e que esse eterno amor possa servir de exemplo e as pessoas se lembrem das palavras do profeta da carne.
Toda existência é divina, é macho e fêmea, ambas e nenhuma.
Que os fanáticos descubram o verdadeiro sentido do amor que ensinaste:
Amor sem restrição, paixão sem forma, prazer sem culpa.
Hino dos deuses ao Cordeiro
Frágil e fraca criança! Por nossa imensa bondade nós mantivemos a lei, apesar de seus ávidos esforços.
Da fúria religiosa, protegemos a saúde do Leão e o futuro das criaturas.
Dispensamos pelo mundo o guarda e vingador máximo, o que entrega franca e livremente, a Lei da Vida a toda gente e, na forma do Lobo, resgata as ovelhas da ignorância.
Mas não é tempo e momento de julgamentos e condenações, este oficio é de tua estação, agora reina a Primavera!
Entre sem receio, misture-se na festa, brinde com seu Leão e sorria com o Lobo, alegre-se e viva!
Hino dos deuses ao Leão
Bendito seja, verdadeiro rei, aquele que lidera sem oprimir, o que toma a paixão por nobreza, o que faz do amor autoridade e põe o prazer no trono.
Bendito seja, amor manifestado, arrebatador, incondicional, divulgador e promotor da lei, entrega-se aos devotos mais amor que estes exprimem.
Lembre ao Cordeiro a verdade e mostre às ovelhas a forma, ao Lobo abra caça à castidade e aos Apóstolos proíba a homofobia.
Que a toda criatura, veja, sinta e desfrute a plenitude da Vida!
Hino do Cordeiro aos deuses
Anciões da Eternidade! O tempo do Inverno é pesada lembrança de meu cruel oficio.
Tudo que eu trouxe foi medo, ódio e guerra.
Por ser luminoso como vós, tornei tudo ao meu redor em sombras densas para destacar meu brilho, eis meu orgulho e vaidade!
Quis converter a todos e, para disfarçar meus defeitos, impus aos crentes ordem e disciplina.
Os cânticos me elogiam, os homens me clamam, eu sou o Messias.
Mas diante do Sol, mostro minha verdadeira face, eu sou a Estrela Dalva, a Estrela Vespertina.
Eu apenas sou um luzeiro, diante do fogo do Amor!
Hino do Leão aos deuses
Fraco eu sou também e indigno de uma coroa, feliz em receber amor, é imperativo distribuir.
Nada fiz de extraordinário, apenas segui a vontade natural.
Debaixo do Amor, estou sob as ordens do menor e rendido ao vencido.
Ainda que seja objeto de escárnio, eu sempre hei de amar o Cordeiro.
Nosso amor não enxerga diferença, somos ativos e passivos, vivemos nosso lado feminino para elogiar nosso lado masculino.
O macho é figura em extinção, todo herói sabe-o bem, mais coragem se exige em desafiar infundado preconceito.

Ritos do Prazer - Terceira sagração

Hino do Lobo às ovelhas
Venham todas, sem demora, mesmo a menor e tímida.
O pastor está morto, foi derrubada a trave do cercado.
Não temam explorar a pradaria, sintam o gosto do horizonte e a força da liberdade.
Eu as ensinarei estas coisas, de que fonte beber; de que fruto comer e todos os caminhos.
Conhecerão seus corpos e conhecerão o meu.
Poderão aproveitar a vida e saborear este festim.
Eu as farei tocar em seu intimo divino e as farei dançar em meu externo mundano.
Hino das ovelhas ao Lobo
Bom senhor e conhecedor, tenha calma e paciência, sabemos e sentimos sua verdade, mas ainda tememos e receamos!
Vivemos por muito tempo, vendo o mundo por uma fresta, suportando o peso da lei fria e recebendo um amor sem paixão.
Agora sabemos e percebemos, que possuímos corpo e desejo, que isso é natural e, portanto, divino.
Faça-nos conhecer, estes deuses da natureza, que bendiz e honra sua gente.
Queremos conhecer, o toque sagrado e, como as vestais, sermos inundadas.
Nos mostre como nos elevar e nos eleve em ti.
Aceitamos este acordo, tu te nutres de nós e nós nos completamos em ti.
Hino dos deuses às ovelhas
Não vos envergonheis! Mais vergonhoso foi o pastor que, fazendo papel de deus, as manteve em um curral!
Muitos são os gados, tanto quanto os feitores, mas mesmo o terrível juiz deve obedecer a lei!
Aquele que escreve a norma, põe a si mesmo sob juramento, mas a lei que não se escreve e, entretanto, é observada naturalmente, mais forte que o poder e o medo do castigo, esta é a lei do Universo.
Amor como nome, união como forma. Os deuses em carne existem, os humanos em espirito vivem.
Então, recebam as dádivas divinas e aproveitem as ofertas mundanas, nós nos fazemos presente em vós quando em vós se fizer presente o Lobo.
Hino dos deuses ao Lobo
Bom e fiel guerreiro! Tomai essas ovelhas e as conduza pelas pradarias. As alivie do remorso e evite o rancor.
O pastor é digno de esquecimento. Nós somos bem servidos, com sua força e língua, teu corpo satisfaz as deusas.
Você é a lei natural manifesta, seu nome é grande entre os homens e sua figura temida entre os deuses.
Por causa de seu vigor voluntário, pedimos um disfarce ao seu nome.
Não esmoreça na batalha, continue a espalhar a toda criatura consciente a Lei da Vida.
Que o seu membro seja o medianeiro ideal, entre a morada dos deuses e a morada dos homens!
Hino das ovelhas aos deuses
Bons e agradáveis deuses, que nos acolhem e aceitam, tal qual somos, naturalmente.
Não estigmatiza o que é puro, nem corrompe o que é virtuoso.
Estivemos tão longe da verdade e tão afastadas da realidade, que estranhamos nossa natureza, mas nos entregamos aos sentidos.
Pedimos para que nos amaciem, nos penetrem e nos invada.
Assim preenchidas, por cima, pelos deuses; por baixo, pelo Lobo; renascemos e recuperamos a posse sobre nós.
Nos inundem com este leite, nos consagrem com a seiva e nós não cessaremos o rito, espalharemos o louvor dos deuses, fazendo amor repetidamente por todo este mundo.
Hino do Lobo aos deuses
Soberanos dos mistérios! De quem recebi feliz missão da guarda e entrega da lei.
Dotaram-me da força, do vigor e plenitude, necessários para sagrar a vida.
Tendo vosso apoio, eu sirvo o palo, testemunha firme e durável da lei.
Ainda que siga solitário, vivendo na sombra e rejeição devido ao temor dos demais, pelo meu excesso de vontade e extrema paixão na forma, continuo com meus votos para, pelo meio das donzelas, abrir o entendimento e preencher o conhecimento.

Ritos do Prazer - Segunda sagração

Hino do plantio e da paternidade
No ventre da Grande Mãe está a dádiva dos deuses.
Tal como cuidamos e vigiamos o ventre crescente das vestais, regamos e carpimos o campo.
Para que não se perca a colheita, tomando o exemplo dos deuses, somos ciumentos e zelosos, orgulhosos de nossa prole.
Eis a boa e excelente paternidade, não negamos nossa descendência.
Seja riscado da comunidade, qualquer homem ou deus, que condene o fruto da união ou persiga o rito da consumação.
Que a ninguém seja concedido, tornar impuro o que é consagrado.
Consagradas estão as vestais, como consagrada é a Grande Mãe.
Porque sagrada é a junção, de homem com mulher, do deus com a deusa.
Pois o fruto é a vida e a vida continua no amor.
Hino das descendências aos antepassados
Aqui estamos, guardados, protegidos pelo corpo sagrado, crescendo, germinando.
Nós somos a seqüência, a esperança da descendência, de uma longa e feliz linhagem.
Agora dependemos de cuidados, temos muito que aprender.
Para nos tornarmos completos, maduros, felizes, ensine a mãe ao filho como tocar uma mulher; ensine o pai à filha, como resistir e ceder.
Tendo cuidado de nossa infância, não cobiçaremos, dividiremos; não roubaremos, repartiremos; não violentaremos, compartilharemos, assim a lei é mantida e o ciclo continua.
Hino dos antepassados às descendências
Bendita seja a renovação! Que venham as brisas da mudança, que vicejem os brotos da ousadia.
Bendita fúria sagrada, venham os jovens e sua revolução, para que se aplique a evolução. Conquistem seu espaço e lembrem que nós também tivemos nosso tempo e muitos mais antes. Que não nos abandone na velhice, como nós não lhes faltamos na infância.
Da mesma forma que recebem e aprimoram tão antiga herança, reavivem em nós a graça da nova experiência e refresquem nossos sentidos. Vocês tem o frescor e a ansiedade, nós temos a técnica e a paciência.
No templo sagrado, não há sentido a idade, nem tem lugar a consangüinidade, somos todos um e o mesmo. A regra é o amor, a união é a forma, o prazer é tudo.
Hino dos deuses aos pais e filhos
Em espirito, somos criados; em carne, somos nascidos. Nem a carne pesa ao espirito, nem o espirito oprime a carne.
Não existe separação ou rejeição, dos deuses vem o exemplo, que o sagrado é a convivência e a lei é o amor.
A idade não concede precedência, nem implica obediência, laços consangüíneos perdem contra os laços da união.
A posição pouco importa nesse esporte sagrado.
Que se una sem restrições o novo e o velho; o esquerdo e o direito; o sombrio e luminoso; o humano e o divino.

Ritos do Prazer - Primeira sagração

Hino das vestais aos deuses
Acabou a estação de estio, o gelo derrete, vem a névoa e o orvalho.

No solo, as sementes aguardam, sobem os vapores, juntam-se as nuvens.
Os deuses preparam a chuva, venham e propiciem a fertilidade!
Venham sobre nós, façam de nossos corpos o terreno arado e pronto.
Venham em nossos sulcos e derramem dentro de nós o néctar vitalizante, que despertará as sementes do torpor, para que todos aproveitem a safra.
Mostre a divindade pela verga, prove a autoridade pela soma.
Hino das vestais aos campineiros
Vinde, obreiros da colheita!

Vede que os deuses não demoram, cedo vem as nuvens e os campos devem estar prontos.
Tragam as enxadas e firmem os moirões.

Removam as pedras do passado e as raízes do remorso.
Não podemos atender aos deuses, nem honrá-los com nossos serviços sem sua vigorosa ajuda.

Abram nossos véus sagrados e depositem sua força em nosso templo.
Façam com seus corpos musculosos a sagração de nossos veios, amaciem e preparem nossas carnes, para receber a dádiva divina.
Hino dos campesinos às vestais
Formosas damas, eis-nos!

Nunca fugimos às obrigações, mal nos chamaste e nossos membros já atendem.
Somos homens rústicos, simples e brutos. Não possuímos riquezas, senão nossas mãos, nem temos nobreza, senão nosso trabalho.
Ainda assim nos recebe, o templo sagrado se abre, nos revelando segredos e mistérios que são negados a reis.
Recompensados com tal honra, oferecemos em profusão dessa seiva que seus corpos pedem em sagrado frenesi.
Hino dos deuses aos devotos
Eia, fruto de nossos amores!

Nós viemos de longas distâncias, escutamos o chamado da carne e nos preparamos para nutrir este mundo.
Eis a verdade, o que está embaixo é igual ao que está em cima.
Benditas são as vestais, que com seus véus dançam, chamando para si os campesinos, para que esta festa na terra se reflita no firmamento.
Assim se juntam as nuvens e nelas derramamos o sagrado néctar. Enchei os ventres das vestais com sua virilidade, campesinos, para que, do mesmo modo, derramemos a nossa seiva no ventre da Grande Mãe.
A ninguém seja permitido separar e discriminar a vida. Material e mundana, é a mesma vida, espiritual e sagrada.
Hino de gratidão dos devotos aos deuses
Grandes e respeitáveis deuses!

Aos que reconhecem a paternidade e não fogem da responsabilidade, nós agradecemos a propiciação!
Manifestada seja a lei, amor e irmandade.
Somos espirituais e carnais, como vós são carnais e espirituais.
Tal como vieram à Grande Mãe, vem os homens às mulheres.
Tal como à dádiva do amor não se impõe regra ou forma, nos unimos ao festim, para que o espirito se torne carne e a carne desperte sua alma.
Não pode haver separação, são uma e mesma essência. Portanto venham em nosso meio na próxima temporada, enquanto continuamos a seguir o ciclo sagrado e eterno.

Ritos do prazer - Abertura

A celebração dos deuses
De todas as partes da eternidade vem todos os deuses e deusas até os Elísios fazer Assembléia, cada qual seguido pelos devotos e caravanas de criaturas.
Começa a grande congregação entre deuses, criaturas e homens.
Os deuses oferecem como exemplo o espetáculo do ecumenismo carnal.
Enfim se pode Amar, conhecer e manifestar tal maior e máxima lei.
Todos os corpos, dançando, se encontram.
O Cordeiro afaga o Leão, acabou a fúria da homofobia.
As ovelhas virgens se oferecem, despudoradas, ao velho lobo sombrio, acabou a hipocrisia da pedofilia.
As pombas pulam entre os ninhos, experimentando muitas uniões, acabou a falsidade do adultério.
O Exú Trovador pode aplicar sua pena a contar os atributos de Fátima, cuja carne não conhecia tão prodigioso pincel.
Pela força do Amor, pelo poder da Paixão, baixam-se os estandartes, depõe-se as armas. Dissolvem-se os exércitos entre anjos e demônios, acabaram as diferenças e rivalidades, trocam a insípida questão religiosa, por uma bela competição lúgrube.
Cessam as predicas fanáticas dos sacerdotes farabundos com um bom boquete.
Este pobre mendicante das letras vitorioso, assiste sentado a cena no colo daquela deusa, a quem roubou a sabedoria, donde registra aos sucessores todos os louvores do êxtase.
Sob o perdão destes herdeiros pela letra tremula e falta de esmero, posto a dificuldade em por a termo o que é interminável, em descrever o que é indescritível, ainda tendo as mãos ocupadas.

sábado, 9 de maio de 2009

Apostolado profano - VII

Como este pecado foi assim definido pelo julgamento deste deus contra um erro do homem, só percebido ao ter sido verificado o fato (como já foi considerado) como pode este homem tê-lo cometido sem ter noção de tal justiça e da pena que incorria em cometê-lo? Ele já tinha noção, sem dúvida e o que o levou a cometê-lo é porque sua noção pessoal assim decidiu, porque em sua própria consciência isso não era pecado, a princípio!
Só assim pode ser compreendido tal fato, este deus não era tão poderoso nem tão senhor do homem. Este, apesar de ter sido criado pelo primeiro, já tinha uma consciência própria e anterior ao fato o que estranhamente é a negação do princípio dogmático que o homem conheceu a consciência após o fato, de que o homem era criatura deste deus e dele recebera as primeiras noções e a este deus deveria servir e seguir estas noções, assim como a consciência deste deus (ou sua justiça, a seu gosto). E que o princípio do pecado só se tornou real quando este deus puniu-o por julgamento deste, um ato que para o homem era natural e instintivo, causado e assumido por sua consciência pessoal e individual, distinta e desvinculada do seu Criador (o que, pela lógica, é impossível ou improvável, sem que levemos a considerar as causas e conseqüências necessárias a tal, como já o descrevemos).
Este deus, sem dúvida, deve ter sido um ser e Senhor do homem, dono de uma consciência e de uma justiça que, por elas, condenou o homem. O homem, sem dúvida, acreditou ser este deus seu Criador porque assim lhe ensinaram mas apesar disso já tinha noções e consciências próprias e desvinculadas do seu Senhor que o era então, apenas fisicamente, não espiritualmente como querem os dogmas e as religiões.
Não existe qualquer outra consideração a ser feita a respeito que possa ter mais razão e lógica que esta, embora sendo antidogmática e contrária a idéia que se subtende numa relação entre deus e homem, que por hora se requereu tão necessária ao passar dos anos e da evolução dessa mesma humanidade sem a qual teríamos sérios problemas existenciais.
Mas creio que já amadurecemos bastante e já está na hora de renegar este passado e consciência estranha à nossa condição e realidade. Pois, retomando a questão, não somos culpados de pecado algum nem somos tanto assim servos deste ser que se nomeou deus e que pela ideologia dele (não a nossa) nos culpamos e cumprimos uma pena por uma justiça baseada nessa ideologia alienígena, estranha e imposta ao homem.
Tomamos o fruto e erramos para ele mas para nós não foi erro senão nem teríamos feito. Foi um ato natural e até consciente de nossa parte, não existe outra explicação, sendo assim, dessas considerações só resta mesmo as conclusões já alinhadas, mais nenhuma outra. Só como última consideração devemos por conseqüência a essas conclusões, não mais dever satisfações aos sacerdotes, representantes desta estranha justiça e ser megalômano assim como desprezar seus cultos, conselhos e moralismos já que estão baseados em falsos dogmas de um falso deus, de uma falsa religião.

Apostolado profano - VI

Sabe porque tem tantas pessoas que rezam e pensam em Deus? Estão todas preocupadas com a salvação da alma. Sem dúvida, dedicar um dia de cada semana ou mesmo de um mês e ir a missa ou coisas do gênero são capazes, pela ingenuidade do sujeito, de deixar aliviada até as consciências mais culpadas. Até mesmo os sacerdotes e santos das religiões não escapam. Somos os "eternum pecatorum", estamos compulsoriamente condenados por uma instrução dogmática.
A razão existencial de uma religião poderia estar baseada na premissa primeira da existência justamente do que querem combater e evitar? Sem o pecado não há culpa nem condenação, conseqüentemente não haveria tanta necessidade que a humanidade tem em afundar-se em religiões e cultos que expiem esse pecado que nem se tem mais conta ou memória (diria até mesmo culpabilidade).
Podemos até mesmo admitir que tenha existido esse tal deus, de qualquer que seja a religião, que fez em seguida o homem. Mas todo processo da existência da própria humanidade e até das instituições religiosas só se tornou possível graças a esse tal pecado. Tendo partido dele mesmo, resta-nos adivinhar por que esta criatura divina a cometeu, não outra e o que a levou a tal à revelia e desconhecimento de deus (tanto que o castigo é dado depois que se tomou conhecimento do fato, o que demonstra que este deus não é tanto assim onisciente e onipresente). É como se o Criador e a criatura fossem seres completamente distintos e distantes, o que não é muito racional ou lógico, quando encaramos a relação de deus com o homem, que dogmaticamente é tida como integradora, ambicompensadora e ambireferencial. Pelo que poderíamos admitir então, já que este deus não era tão poderosos e que o homem não era tão dependente e integrado a este deus, é que não só eram seres distintos, distantes e independentes entre si, eram completos estranhos numa relação onírica entre um ser de dotes supremos, se comparados aos do homem que era considerado o primeiro, e este homem dominado por este, por formas outras que não as sobrenaturais atribuíveis a este deus (o que se provou não o ser).

Apostolado profano - VI

Oh, sim, meu vingador! (Ela estremecia novamente, pois o prazer abria ambas as mentes para a sabedoria mais sublime e soberana no Universo, sem contar que lhe abria as carnes, a cada ofensiva de meu aríete em seus portões). Mas tu me disseste que não quer ser meu senhor, pois há muitos maiores que tu nessa deliciosa prática que nos dá tanta sabedoria. Diga-me quem são e de onde vieram?!
Minha deliciosa! Com que orgulho sinto que realmente te interessa vir a saber tanto, pedindo-me que ensines e te mostre aquilo em que já és mestra! Mas te direi, para que melhor desfrute deste momento e possa rir do pouco que sei diante de ti! Ajudarei-a a lembrar do nosso verdadeiro lar antes de me acabar... Que agradável!
Minha doce leoa, eles não gostam, mas não conheço outra forma de defini-los. São os espíritos das Trevas, adversários do Império das Luzes, do Deus da Igreja e seu Cristo, ou de qualquer outro nome pelo qual se conhecem os deuses, que se dizem representantes do Bem. Por conseqüência, na ausência de outra definição, eles são o Mal, mas até hoje não se tem notícias de que tenham influído nos destinos do homem de forma arbitrária, como fazem seus oponentes, não impõem a vontade deles, os que assim fazem são homens que não tem nenhuma representatividade no Reino das Trevas na Terra.

Apostolado profano - V

Meus princípios impedem-me de aceitar tanto, minha dama despudorada, eis que sou somente o escritor do profano, não um ministro ou o próprio senhor deste e são a eles que deve oferecer seu louvor e veneração. Vou lhes apresentar, assim que você souber por que e no quê são melhores e maiores que o Deus da Igreja e o Cristo, que sejam vencidos estes e vitoriosas as Trevas!
Não te estranhes quando te digo, Deus não foi mais divino que tu ou até eu mesmo. Foi tão real e vivo como nós o somos. Aquele, que dizia ser seu filho, foi um bastardo, nascido de uma fecundação ilegítima, por inseminação artificial e não foi sem merecimento que foi julgado. A ele foi dado exatamente o objeto de seu prazer criptomasoquista, que foi a crucificação.
Esta que se instituiu, como a religião verdadeira, ganhando por sobre as outras, por métodos nem sempre piedosos e conclamou-se como Igreja Católica Apostólica Romana, não é senão um antro de celerados que, a exemplo de seu mestre, martiriza quem diverge da filosofia que conclamam como divina. Como se, esse ao se tornar mártir, lhe dessem a autorização de martirizar as pessoas.
As pobres mulheres, que negam sua condição primeira, servindo a este bastardo e sua Igreja como beatas, freiras ou sórores, o fazem por uma razão muito sublime. Tendo suas funções naturais, espontâneas e legítimas proibidas pela filosofia doentia do catolicismo, não é espantoso que prestem seu amor a ele desta forma, pois veja bem: está esticado em vigas de madeira dura e na imagem nua, quase se pode ver o que deveria ser seu divino membro (embora duvide que tenha tido). A própria imagem é de madeira rija. Ora, pau por pau, na ignorância de conhecer aquele que contém a carne e a carga necessária, para os afazeres divinos e sagrados que somos praticantes, serve-lhes muito bem este, castrado e estéril, indiferente.
Quando o desejo já supera os limites do recato, muitas sabem como engolir a hóstia e servirem-se de velas bentas para satisfazerem-se. Por isso é que se sente um perfume quando se acendem tais velas: é o perfume das vias (que faço sagradas em ti) excelentemente preenchidas pelas velas bentas. Agora tem a conta do porquê somos mais sagrados e santos que a Igreja e seus mártires?

Apostolado profano - IV

Ela veio por sobre mim lânguida e solicitante do m,eu apoio, com olhos afundados em prazer e visão aberta pela sabedoria que nos consumia pela graça do momento.
Meu cetro encantado, de quem recebo a realeza e a sabedoria para reinar. Pode me dizer por que é tão bom fazer amor sem cessar com meu amor? (Ela perguntava a mim e a meu membro, que ela tomou e encaixava na porta de seu templo sagrado)
Não o sentes? Diga-me você mesma.
Oh! (Ela parou, pois quase lhe subia demais o prazer, quase a desfalecendo e quase a fazendo gozar abundantemente). Meu cetro, algo em mim pede por ti e devo satisfazê-lo. Mas está tão longe e tão dentro de mim que devo conduzi-lo por meus portões até lá e servir esse senhor de meu corpo e desejo a quem ofereço meu prazer e minha alma, e o meu senhor é tu, meu delicioso vingador!
Chamo-te vingador (Assim ela me falava), mas sabe como te amo. Tanto te quero e tanto me faz feliz que quase o tenho por meu Senhor e Deus. Antes tivesse vindo a descobrir tal fonte de saber compensador e delicioso como esse. Mas estava iludida com as fantasias das beatas por Cristo e seu Pai. Como pude me deixar desmerecer assim? Só agora eu estou completa e satisfeita, só assim contigo pulsando dentro de minhas carnes me sinto possuída da verdadeira felicidade e sabedoria, moradora do mais delicioso paraíso e servida pelo mais delicioso fruto que tomo de ti, assim tão despudoradamente e ilimitadamente, meu vingador!
Diga-me meu degenerado! Meu vingador, meu amado sacerdote do profano, por que se entregam tanto as pessoas a coisas tão estranhas e irreais quanto a Igreja, Deus, Cristo e os santos todos, malditos sejam por ter me oculto de ti e de tua fonte de saber!
Ela arrepiou pela blasfêmia que o prazer a levou e sem pudor ou remorso a esta brindou com um generoso orgasmo.
Meu vingador (ela disse já mais calma, mas ainda cheia de desejo por mim) não fique bravo comigo. Eis que vou a partir de hoje considerar meu senhor, não meu servo sacerdote, como queres. Preciso eu muito mais de ti que tu mesmo a mim, a que fico honrada e lisonjeada, mas só me pude coroar porque tenho teu cetro em minhas entranhas a me dar sabedoria tão deliciosa.

Apostolado profano - III

Meu querido, meu amado (assim ela me chama), pode me dizer por que vocês tem precedência sobre nós, quando muito mais seria proveitoso estar em nossas mãos certos deveres?
São poucas, minha querida, que como você podem ver que, o que até então é compreendido por ser mulher, foi definido pelo homem. Você é uma em cem, mas logo serão cem em uma. Neste momento só nos restará pedir aposentadoria, pois sempre pertenceu à mulher a razão perfeita de como saber exercer esses deveres.
Oh, não! Nem pensar (ela dizia me abraçando). Tomo meu lugar no trono, mas é sobre ti que haverei de sentar e de sua parte me dará esse apoio tão deliciosos que me põe entre as pernas e me faz ser tão sábia. Só assim aceito reinar, pois saiba que, mesmo rainha, ainda quero ser tua serva, pois me faz falta esse teu corpo que penetra no meu e me completa, me faz feliz.
Notaste meu delicioso (ela me oferecia seu rabo, uma visão do livro e um pedaço de sua sabedoria) que cada fêmea animal foi entregue um atributo especial de beleza e sedução?
Ora, meu anjo de luxúria! No que me diz respeito, a mulher é a mais bela dentre qualquer uma delas!
Meu vingador! Como desmereces assim as outras fêmeas?!
Permita-me donzela desfrutada. Umas tem penachos multicoloridos de sobra à amostra e não há nenhum mistério nisso. Ao contrário, tem escondido em uma parte graciosa e única, as mulheres, seu mais belo tufo de pelos que um homem poderia conhecer. Já noutras, seu corpo esguio fomenta o desejo de seus machos. E agora vem a mulher, cujo número de curvas é igual à quantidade de formas harmônicas e esculturais, de tal forma que no princípio, se consultarmos a maldita bíblia, até uma serpente a preferiu para conhecer essa ciência que somos alunos um do outro. E que um deus celerado puniu e condenou desde essa primeira manifestação desta ciência, que ainda vai trazer à tona, a sabedoria que vai destroná-lo. Umas tem peito proeminente ou coroas na cabeça. Agora, minha adorada, o que são teus seios (e os acariciei, fazendo-a gemer) senão tua proteção, alimento a infantes e objetos sagrados do teu altar que se erguem aos céus, trazendo ao delírio este pobre mortal e até os santos celestiais? E em tua cabeça não tem o mais sedoso e perfumante fio de Ariadne que me encurta a vida, roubando-a aos golfos e me enredam nessa teia que guarda o ovo da sabedoria, que não me deixam mais me separar de ti, pelo contrário, me faz afundar ainda mais e muitas vezes em teu corpo, como se já não o tivesse feito tantas vezes? Quem viveu como eu pode provar que eu digo a verdade.
Então experimentou as carnes das mais variadas para depois ter a minha e ainda quer me convencer de tuas boas intenções e desejo para comigo?
E acabar aos poucos somente em ti, pois o que tomo por prazer , por diversão, das demais fêmeas, o dou por merecimento e veneração somente a ti .

Apostolado profano - II

Essas estão aqui feitas, quase tão perfeitas de um momento raro dessa minha vida miserável, desse mundo medíocre.
Foi pela ocasião de um noivado de casamento marcado de famílias aparentadas de mim e me vi então intimado de comparecer para que fosse eu o orador da celebração.
Cada qual parente do noivo e da noiva receberam seu quinhão do dote tendo em troca dado essas tais mercadorias que se dão a recém-casados.
Vendo-me tão afundado nesse suborno das consciências, necessário para que se perdoe o excesso de confiança entre os noivos e que por uma instituição, se lhes permitam desfrutar desses direitos matrimoniais, então recém-adquiridos, chego a uma idéia tal que vai encantá-los também.
No que me chegou a parte de receber meu quinhão, reservei-me um instante da noiva em lugar afastado e creio eu que ambos ficamos igualmente satisfeitos com o que nos demos e trocamos pela festa, roubando a dor primeira do noivo, que terá sua pequena e mesquinha vez de devorar estas carnes em precedência a mim. Só espero que minha parte não a tenha feito tão feliz que venha a sentir falta, mesmo em companhia de seu noivo e eu tenha de ensiná-la porque a fiz tão sacra neste momento profano a essas instituições da consciência.
Dessa noite guardo essas máximas que trocamos nos poucos minutos de descanso que nos dispusemos a nos oferecer tanto e tão caro desejo.
No que me resta em observação secundária, só lhes é dado saber que é nesses momentos em que se alcança sabedoria sublime e plena, de mente aberta e fluindo. Não será muito surpreendente se viermos a aprender mais com nossa amante, uma mulher distante em ocasiões normais, por horas afinco, embora tenhamos a pretensão de sermos os mestres de uma ciência tão deliciosa e envolvente.

Apostolado profano - I

Aos que quiserem descobrir minha causa e a origem do que defendo, olhem-se no espelho e perguntem ao natural, se lá viu coisa igual. Poderão vociferar que desta arte abuso, por fragilidade de espírito, por falta de maturidade ou por caprichos emocionais. Mas se, por menos amor se acreditam em tantas besteiras e se cometem tantas bobagens, que se dê ao menos a tais pretensos adversários, o direito de defesa.
Se vocês podem condenar uma pessoa pelo que fala, vós dizeis-me o erro de minha pronuncia. Mas atenta-vos! Poderei também denunciá-los. Pois falam por vós mesmos, não pelo sagrado que defendem, apenas pela idéia deste e pela conservação de seu poder. Toda vossa organização, um bando de fanáticos, igualmente supersticiosos, vive mais pelos símbolos que pelos ensinamentos deixados. Devo dizer que estão mais próximos de estar a me justificar, que a provar sua certeza.
Tudo foi um erro desde o principio. Como pode condenar o adultério, se mesmo esse mestre foi fruto de um? Não foi sua progenitora amasiada a outro homem, após ter tido com o Rei? Este mesmo Rei, não foi o que enviou o casal até uma região proibida? Podem garantir-me, que não foi ali que teu mestre aprendeu todos os truques que sabia? Que mérito pode haver se, tal sacrifício, já era sabido e constava em contrato? Apenas uma desculpa para nos conduzir ao conformismo.
Agora peço vosso testemunho. Não foi na verdade vossa igreja erigida por um militar romano? Esta é a igreja que defendem. Uma organização criada pelo homem, para substituir o Império Romano, com o apoio de dogmas de fé, mas da mesma forma agressiva. Mas em nenhuma das palavras, das que podemos admitir que vieram do vosso mestre, existe a ordem para tal organização, nem para a conquista armada, nem mesmo orienta para tantos dogmas, nenhuma palavra sobre tanta burocracia religiosa! Acumularam riquezas e poderes, perseguiram, assassinaram, injuriaram, enquanto os homens só queriam crescer!
O pecado só existe onde há proibição. Proibição só existe onde há culpa. Culpa só existe onde há ignorância. Ignorância só existe onde há fanatismo. O homem já está crescido. Está numa fase de pré-puberdade, deve estar livre para ver seus erros, desimpedido para corrigi-los. A tutela de vossa organização está dispensada. Precisamos mais do que esta consciência velha e enferrujada. Vivam por vossas custas, se são tão santos, cultivem vossos próprios víveres. Deixe a riqueza, do homem e desta terra, ao homem! Pois, se estas são tão materiais e conspurcadas de pecado, certamente não as merecem! Vivam em vossas vidas miseráveis, regadas de renúncia e abstinência. Porque nós, queremos e temos o direito de conhecer, experimentar e descobrir todas as sensações e prazeres da vida.
Para este novo tempo, para as novas consciências, uma crença não lhes faltará. Mas virão a descobrir uma, que terá dignidade e sabedoria. Com apoio à razão e à consciência individual, com orientações simples e sem burocracias mirabolantes, com a força e o poder que sempre lhes pertenceram. Pois sempre existiram, bem antes de tantos impérios, mas nunca interfeririam, pelo respeito que sempre merecemos. Estes sim, sempre presentes em nós, em nossos espíritos e corações, como deveria ser um deus, apenas aguardando o dia que despertássemos!
Ao invés de nos fazer aceitar o sofrimento, nos ensinarão a lutar. Ao invés de nos fazer aceitar as fatalidades, nos ensinarão a prevenir. Ao invés de nos fazer aceitar o domínio, nos ensinarão a autonomia. Ao invés de nos fazer aceitar o dogma, nos ensinarão a raciocinar. Ao invés de nos fazer aceitar o pecado, nos ensinarão a experimentar. Ao invés de nos fazer aceitar a culpa, nos ensinarão a responsabilidade.
Eles vivem nas trevas, de onde tudo veio. Eles vivem em nós, nós vivemos por eles. Não irão quebrar o vaso, pois conhece bem o conteúdo. Não irão guardá-lo na adega, pois sabem bem como usá-lo. Não irão trocar seu vinho, pois lhes valem muito sua serventia. Não porão pesadas cargas, pois se importam muito com nosso crescimento.

Provérbios eróticos

Meu filho, ouça-te o saber, ouve a tua inteligência e terás juízo e ciência, eles honrarão teus lábios.
Entrega-te à mulher perversa, os lábios da sua vulva destilam mel, sua palavra é mais valiosa que o vinho, o fim é mais amargo que o vinagre e mais aguçado como a dúvida que desperta.
Seus passos vão para a morte e nossos caminhos têm de passar por ali obrigatoriamente.
Longe das veredas da vida, uma via fácil e agradável porém superficial, para não parecermos tolos.
Ouça-te sempre, meu filho não te desvies de tuas decisões.
Faz teu caminho por ela, termine tua inútil vida na sua cama, temendo tua cabeça vá a ela.
E caso teus saberes sejam condenados pelos justos, temendo que tua obra beneficie perseguições e o fruto de teu prazer se perca tão cedo, temendo a evidência da tua execução, o corpo e a carne trucidados, reagirás e declararás:
Odeio a repressão, meu coração despreza a moral, não ouvi os que se dizem mestres nem sigo o que instruem!
Logo serão um monte de estrume no meio do povo e de sua assembléia!
Censuras só são boas a quem ama a vida, pois te proibirão de desfrutar da mulher perversa e da língua gulosa da estrangeira.
Não resistas à beleza, o teu coração, nem te deixes de notar esses olhares sedutores.
À cidadã basta um único homem, mas a adúltera é fonte de experiências preciosas.
Pode alguém deter o fogo natural interno sem que sua mente seja submetida?
Pode alguém negar as brasas sem que seus olhos teimem a desejar?
Tal é o que vai à mulher alheia, quem a compartilha jamais esquece.
Não se pune a emoção que surge para completar a falta deste alimento!
Se for aplicado, ganhará o décuplo e receberá tudo o que quiser desta causa.
Mas à adúltera, sobra-lhe recursos.
Quem quer aumentar os seus, consulte-a, sim!
Ela recebe tímidos e acanhados que jamais tornarão a ter vergonha!
O cume excita a vinha dos maridos, não terá prioridade no dia da lambança, não cederá com pouca consumação, nem se satisfará muito cedo, se o tentares.
Ela o guia com tesão, excita-o com lábios sedutores.
Tu te pões a contentá-la, como um boi trepado no seu couro, tal qual um cervo, preso nos lençóis.
Logo a seta entra no seu princípio, como um pássaro que entra no buraco, sem saber que ali se dirige toda a vida.
Agora meu filho, prepara-te e ouve as palavras dela.
Teu coração descarregue nestas vias sem se desperdiçar por outros caminhos, pois ela o conduzirá à plenitude, os mais robustos são preferidos.
Sua causa, caminhar para a perfeição, que adentra pelo templo do prazer.
Meu filho, dá-lhe teu coração, teus olhos observem esses caminhos.
Uma cava profunda: sua arma, um poço estreito: a estratégia.
Ela faz enlaces como uma rainha e aumenta o número dos gozos.
Tal é o caminho da mulher prazeirosa: come e depois, limpando a boca, diz: Não foi nada mal...
Esposa lasciva é como o vinco de dois seios fartos: querer reparti-la é como aliviar a pressão.
Mulher embriagada é motivo de orgia: sua sinceridade é tocante.
A lascívia da mulher enlouquece, na devassidão do seu olhar e compensa-lhe pelas nádegas.
Não exagere na vigilância de uma filha bem dotada, para que ela não se descubra com fraqueza e não tire bom proveito disso.
Guarda-te de a seguir com olhar mendicante e não te espantes se a arrastam para o lado.
Como um amante tarimbado, abre-a a boca e a faça beber de toda a sua água, sente-a, como mulher, independente diante de qualquer homem e entregue seu corpo à volúpia dela.

Lírios sangrentos - VII

Ao inverso, se se busca muito os vícios, eles perdem toda aquela carga de proibição, até diria pecado, pelo excesso de uso. Mesmo fontes de prazer se se tornam rotineiras, automatizadas, repetitivas, perdem o fascínio, porque agora é um objeto comum. Por ser comum, nem se nota mais quais os prazeres e necessidades que queremos satisfazer, o usamos porque se tornou um hábito, chega-se ao absurdo de o usarmos por instinto, o objeto chega a perder totalmente seu significado e passa a fazer parte do real, ainda que distante, no horizonte.
Não é sem motivo então que seja tão difícil deixar tais hábitos, nem tanto pelo prazer, que estes já não tem, mas sim por fazer parte do referencial do que se considera como realidade, parâmetro que os faz sentir parte deste real.
É então, por precisar de tais justificativas de se considerar inscrito no real, que os homens seguem tais determinações, vindas de seus líderes, ou vinda dos preceitos deixados por tantos profetas que se arrastam atrás das religiões deixadas pelas deidades que, para terem esse grau elevado sobre os mortais, devem sem dúvida estabelecer tais limites do real e do sobrenatural, assim como as regras de viver bem, para os homens merecerem tal local, ao findar o tempo material carnal destes homens. De qualquer forma, todos buscam seu tipo de prazer através das diversas formas de sensibilidade, isto sem dúvida é o que se verifica.
Eu sei que sou uma pessoa comum média e sustento os meus próprios engodos. Afinal, o pior radical contra o sistema é na verdade seu maior defensor. Sua razão de revolta se acaba assim que lhe for dado o que deseja, logo entrando no esquema e até irá defendê-lo. Mesmo o rebelde fornece justificativas ao sistema e sua crueldade, pois é justamente para manter a situação, que se age contra os revoltosos, justificando assim essa relação de exceção e privilégios de uma minoria sobre a maioria. Por mais que se mude de mãos os governos, ainda haverá insatisfação, mesmo que a oposição vença e seja social-democrata, a linha de Estado não deixa de existir e estes, que até tem boas intenções, acabam prisioneiros de sua presa. Não é sem motivo que nada muda efetivamente.

Lírios sangrentos - VI

Então, o que vale a pena, por qual meio devemos levar nossa vida se é tão inútil e cheia de enganos acerca da real intenção de tais deidades por nós? Já que, de qualquer forma, teremos que ser devorados pela morte e só depois viver com nossos deuses, que irão conviver conosco nessa relação simbiótica eternamente, eles nos digerindo e nos mantendo inteiros ao mesmo tempo, por que nos perturbamos tanto com as atitudes e as separamos entre boas e más, se isto não é sincero? Qual é a verdade senão uma boa mentira em que se acredita e pela confiança se dá o valor de verdade? Já que não se difere o casto do libertino, todos deveremos morrer, por que então não viver todas essas maneiras de ser, sentir o mais que puder o prazer tanto das virtudes quanto do vício?
Justamente porque tanto os homens quanto as deidades precisam se justificar a si e a seu outro dependente, já que a existência de ambos seria tão vazia sem uma projeção que estabeleça a realidade como algo concreto, que só é perceptível aos sentidos, por meio dos quais satisfazemos nossos desejos de prazeres, por meio desses objetos, dessas crenças e atitudes humanas. Ou seja, o real é uma mera produção de determinados desejos e necessidades que, ao estarem satisfeitos, acarretam no prazer e no alívio de, com isso, sentir que estão vivos e justificando sua presença neste espaço hipotético.
Até mesmo aqueles que buscam a renúncia a tais sentimentos e objetos materiais o fazem na satisfação de justificar a própria existência. Baseados na crença, acreditam que se provando, privando, recusando, renunciando ao mundano, demonstram forca e coragem, mesmo porque nesta renúncia, as reações biológicas proporcionam uma sensibilidade maior pela ausência desse material. Não negam o material, mas sim o valorizam, por causa de tal sensibilidade mais desperta, mesmo não o desejando, acabam vendo-o com mais esplendor que qualquer outro acostumado a tais objetos. Além do que, ao torná-los proibidos, os tornam mais desejados, conduzindo à sensações de prazeres ainda maiores que tinham ao usá-los.

Lirios Sangrentos - V

Já que existe dissidência, é porque não são tão perfeitas as deidades e muito menos os homens, seus ideais e suas sociedades. Por que não se ouve, ainda que sejam minoria, pois resolvendo os problemas e desajustes destes, evita-se toda a conseqüência criminosa que realizam em busca de sobrevivência ou afirmação como seres vivos e merecedores de alguma atenção e cuidados.
Essa seria a função da organização humana enquanto sociedade, garantir a participação de todos os sócios. As deidades simplificariam bastante seu trabalho sem adversários, pois as atitudes tidas como pecaminosas ou viciosas são apenas formas de expressão de protesto e descontentamento, o que não lhes tira a legitimidade de, como atitudes de vontades conscientes, de serem proveitosas a essas deidades. O que temos na verdade não é a luta entre o Bem e o Mal, mas de conceitos e sentimentos que devem ser discutidos e vivenciados, pois são parte da personalidade de todo ser.
Não se pode condenar qualquer um que seja, por ter tomado medidas drásticas, mesmo o assassinato, pois nós não consentimos, muitas vezes de alguma forma até colaboramos, para a morte por frio, doença, fome, abandono ou violência contra crianças, homens, mulheres e velhos? Muitos não desejam tal destino, incomodados e inconformados, reagem contra quem acredita ser seu agressor, ou seja, a sociedade. Mas o defeito esta na organização e nos organizadores dela. Cabe a nós, como parte disto tudo, lhes exigir atitudes mais eficazes e eficientes que não simplesmente matar, surrar e prender, o que acaba agravando o problema, já que este surgiu por esses fatores. Basta dar acesso e orientar todos para serem indivíduos produtivos, receberem adequadamente para isso, para serem consumidores, para haver mercado, gerando mais riquezas,menos diferenças, miséria, mendigagem, criminalidade.
Então, nenhum ato pode ser considerado criminoso, pois todo ato tem um motivo e um objetivo claramente definível, caso não o seja, tem origens psicológicas, sendo assim, não é natural, foi conduzido a tal estado de demência pelo meio em que interagia.
Podemos imaginar o crime como uma forma da humanidade manter seus níveis populacionais, selecionando apenas os mais capacitados a viver na sociedade, já que o Homem é um dos animais no fim da cadeia alimentar, é até natural considerá-lo predador de todas as espécies, inclusive da própria. Para isso existem os crimes, puníveis ou imputáveis, pois a guerra é crime, mas os que sobrevivem são condecorados como heróis.
Mesmo em paz a sociedade sabe como separar, isolar, incapacitar e matar por fome, doença ou violência policial, coisas cujos verdadeiros culpados nunca serão levados a júri, simplesmente escolhe-se um individuo para pagar por toda uma situação causada pelo sistema.

Lírios sangrentos - IV

Agora, tentemos imaginar afinal o que então, qual que justifica a presença do outro, devemos nós sermos gratos a ponto de nos entregarmos incondicionalmente a estes que nos formaram, tanto as deidades como as sociedades, ou caberia a nós, justamente por sermos racionais, buscar regras de convívio entre o individuo e cada uma dessas entidades coletivas, de formas mais abertas e livres, com melhores ofertas e oportunidades iguais em prol do próprio sucesso destas? Ou então devem estas procurar agir mais pelo Homem, enquanto individuo, pois não é a união de todos e cada um que possibilita e realiza a presença concreta dessas entidades?
Como se vê, a solução esta em ouvir e permitir o acesso de cada participante e crente, para melhorar, atualizar e efetivar como poderes de decisão, as deidades e as sociedades, porque estarão finalmente garantindo a total capacidade de manifestação de cada um. Só desta forma se chegara com sucesso ao objetivo de toda deidade e sociedade, que é captar, coletar a maior quantidade e a melhor qualidade de pessoas, congregá-las nesse meio que só será legítimo quando a vontade coletiva for reflexo de cada vontade individual.
Por outro lado, se existem as deidades que se alimentam das virtudes e as sociedades que se alimentam dos ideais, da mesma forma terá o grupo que, pelo mesmo objetivo mas movido por outras matérias primas, faz sua presença pelo motivo dos vícios, crimes, imoralidade, dissociação, individualidade radical, anarquismo. Mas é bom notar que isso é assim nomeado por um juízo de valor definido pelos primeiros partidários, que considerando ser sua vida exemplar, desta forma a defendem ardorosamente, caracterizando os demais comportamentos e atitudes por estas palavras depreciativas. Não se pode condenar quem, na falta de expectativas e perspectivas, acaba criando todo um método e atitudes segundo um referencial próprio.

Lírios sangrentos - III

Enquanto as deidades exigem um comportamento moral, os ideais comandam os modos de ação da vontade humana. Um comportamento moral tenta regrar as atitudes humanas frente à Vida, negando ou tentando coibir essas práticas mais apegadas à matéria, o que cada deidade entende por vicio, em precedência e preferência a outros, que são dados por virtudes, embora ambos são e precisam ser realizados ainda em vida, vida essa cuja base é a matéria. Mesmo as virtudes não se manifestam, sem se concretizarem em atos ou obras que possam ser reconhecidas como tais. Já os ideais tentam regrar o comportamento do Homem frente ao Homem, dentro de uma Sociedade, a qual é organizada por Estados, estes são formados pelos ideais dos líderes da Sociedade, que garantiram a legitimidade da formação destes ideais, estados e Sociedades, pelo esforço da educação e civilização dos hábitos dos demais, através de anos de Historia, separando e perseguindo o que é definido, por estes ideais, como marginais e criminosos.
Muitos se tornam um elemento visado por não terem muitas escolhas diante da indiferença, total falta de orientação e oportunidades dentro destas sociedades, que são sempre privilegiadoras de um grupo, que contam com a garantia da forca física para coibir desvios e a coopção contemplativa desses ideais pela maioria dos componentes das sociedades, através da formação de uma legislação, via hegemonia ideológica, garantida pela educação.
É de se ver que tal lei e justiça só se mantém quando tem mais forca física que os que estão enquadrados na marginalidade e na criminalidade, tais definidos pelo que entende tais ideais, agregados nos homens e na sociedade, transformando-se numa presença de domínio e controle das ações humanas, tal como as deidades, negando sua matéria de formação, o ser humano, todo ele, cada um, ser vivo, formador de ideais e sociedades, mas que pela ação de um geral organizado, acaba sendo proibido de ter seus ideais fora do organizado socialmente, ou mesmo de ter sua participação nesta, apesar de ser sócio ao seu modo de participar nesta, ainda que limitadamente, por não preencher as exigências necessárias para tornar-se um líder social ou ate um cidadãos honesto, que são todos aqueles que seguem as leis e as condutas sociais organizadas e orientadas por estes líderes sociais.

Lírios sangrentos - II

Pois é de se notar que apenas a criatura humana tem tal capacidade de reconhecer e adotar comportamentos considerados agradáveis a tal deidade, por misteriosos meios de comunicação entre esses e o Homem, quer por escrituras, quer por outros homens que se dizem ter contato com esses. O que é lógico, pois incapacitados pelo seu estado, fazem-no através dos homens, para falar pela boca e pela língua de seus ouvintes e estes, para perpetuar a palavra, a registram nas linhas de um papel, e este livro também acaba tornando-se um testemunho dos desejos destas deidades aos homens, de como devem levar suas vidas, para merecer tal proteção e premio no final da etapa da vida.
Mas então se vê um paradoxo: tão poderosos e ainda assim como um Rei, depende de seus vassalos, para que assim o sejam, dependem da crença dos homens, em numero e qualidade, para reconhecer-se e fazer-se presente, tanto a si como aos demais, que competem entre si, pela conquista do mais alto grau de poder de domínio. O mais estranho: vai ser essa quantidade e qualidade de criaturas aos seus cuidados que lhes darão o poder necessário, pela forca de vontade destas.
Então degladiam-se as deidades em busca da preferência humana pela vontade que são dotados, a mesma vontade que nos tornam criaturas tão notáveis e capazes. Mas a partir do momento em que se deixa dominar por estes desígnios ou outros líderes temporais ou sagrados, corre-se o risco de se perder também a razão, tornando a vontade apenas uma forca de coação, agindo pela uniformidade, prisão e extermínio da diversidade. Pois homens lutam pelo domínio dos seus, da Natureza e de toda a Terra em busca de conforto, poder e riqueza ainda em vida, ou de perpetuarem sua memória, ou de perpetuarem a memória das deidades em que acreditam. Pois tão confiantes estão de que esta é a portadora da Verdade, acabam tornando-se serviçais, se não das deidades, de seus ideais, que na forma de organização humana, acaba sendo transformados em uma presença que podemos considerar semelhante à que exercem as deidades sobre os homens.é interessante notar que quaisquer desses dois captalizadores das paixões humanas acabam negando a base primaria de sua razão de ser: a matéria, à vontade e a humanidade.

Lírios sangrentos - I

Ou conferências carnais sobre a materialidade humana, os objetivos das deidades e a justificativa de seus métodos.
Pois todo o futuro da humanidade está na corrupção da carne, do que sobra, entre vícios e virtudes, sirva-se de prazer a estas deidades que, não tendo a matéria para sentir, exigirão os sentimentos em essência de nós, para terem os prazeres que temos, mas tendo-os em nível espiritual.
Pois a eternidade é um ócio e um tédio, é preciso sentir a vida, esses nossos mortos e existentes sem existência, deidades e antepassados, tem necessidade de algo para distrairem-se e perceberem a própria presença por estas dores e exultações a que estamos expostos enquanto vivos.
Pois nos enganamos, acreditando que a presença na eternidade é melhor que esta na Terra, nos afundando e cercando de crenças, fornecidas pelas múltiplas deidades, cada uma em busca de mais simpatizantes, para aumentar seus pratos e diversificar mais a ceia.
Pois todo ser que é sem que o seja, alimenta-se da crença dos vivos, para que esses confiem a essas deidades o seu destino após a morte, na qual então tais deidades poderão digerir sem consumir o espírito dos crentes que se ofertam a eles, por uma vida após a morte, sem dor ou sofrimento, o que terão pelo preço da corrupção das carnes, mais o espírito, eternamente cedendo alimento, em troca de sua permanência junto a essas deidades. Se os prazeres destas deidades se decidem mais por experimentar virtudes ou vícios, não parece ser razão suficiente para distingui-las e separa-las entre o Bem ou o Mal. Os objetivos são os mesmos, embora a matéria prima seja diferente, assim como as sensações produzidas por estas. A Virtude, embora dependa de referenciais nem sempre confiáveis ou estáveis, é enobrecedora, ou melhor, os homens acham que isto os engrandece e os torna homens de bem, merecedores desta vida na eternidade, que resumem no Paraíso, quando o que terão é, na verdade, o que conhecemos aqui por relação simbiotica, uma troca entre codependentes que se auxiliam e alimentam-se mutuamente. Realmente, o que seriam de todas essas deidades se não houvesse tais homens, ou mesmo tal existência material, ou ate tal vida inteligente?

Cronologia dos desejos - II

Conforme iam se condensando, aumentava o vazio, o meio em que estavam permeadas. Assim, as marés cósmicas começaram a exercer uma pressão, enquanto que nas nuvens começava a aparecer o fenômeno da gravidade que, conforme concentrava mais as energias, as fazia expandirem-se, uma pequena e primal demonstração do que ocorre nos sóis.Nessa transformação de energia bruta em refinada, ou melhor dizer, luminosa, aumentava as necessidades de complementação, o que decerto ia trazendo mais componentes diversificados, mais complexidade à nuvem e dentro desta, na combinação ou fusão de seus elementos, originavam-se outros, alguns luminosos, outros pesados, ou seja, com magnetismo, que pode ser entendido por forca gravitacional. Assim aos poucos se formava um núcleo pesado e uma aura leve periférica, algo que é uma vaga origem das galáxias.Em pouco tempo, formavam-se os planetas e em ao menos um dentre doze desenvolve-se vida, que seguindo o padrão universal de evolução, chega-se às espécies atuais, dentre as quais originou-se a espécie humana, por enquanto a única que se registra como racional. O resto da historia conhecemos bem. Embora o mistério esteja longe de ser solucionado: como é que uma raça que tem tendências racionais pode acabar em tantas humilhações e atitudes, nem praticadas pela mais rele e insignificante forma de vida? Talvez seja exatamente este o paradoxo da humanidade: conquistou-se a racionalidade abrindo mão de uma verdadeira evolução existencial. Justamente por ser tão racional que o Homem é tão bestial. Pensa demais, mas não mede conseqüências. Quem o sabe, que responda, mas quem o quer saber? Desvendar os desejos que move o Homem, para que se saiba seu destino, pois seremos o que fazemos, conforme tais desejos, assumidos ou disfarçados, permitidos ou perseguidos.

Cronologia dos desejos - I

Para que surgisse o que hoje definimos por Cosmos no Universo, as partículas que outrora eram dispersas, desejaram combinar-se.O primeiro desejo foi atômico e vem a explicar porque se tem tanta satisfação em realizar os nossos, é pela explosão de prazer a níveis energéticos, como vêem, mesmo as partículas desejam, não é preciso ser uma criatura sexuada para isso.Já que falamos em energia, as primeiras formações originaram entidades energéticas, por hoje definidas como deidades, em seus diversos nomes conhecidos. Possuidoras ou não de consciência e vontade, ainda eram visíveis quando a humanidade nascera, que em sua inocência acreditou ser estas manifestações a prova da existência destas deidades.
Passada essa fase, satisfeito o desejo, essas primeiras formas associadas, por serem energéticas, ainda eram muito instáveis e permeáveis, de forma que muitas, pelas marés cósmicas, acabavam se encontrando, colidindo ou se fundindo com outras, algo nem sempre recebido com boa vontade pelas partículas formadoras deste aglomerado, gerando muitos conflitos e explosões, desta vez de ira. Era o desejo de privacidade, exclusividade, manutenção da ordem coletiva.
Tanto para garantir a congregação quanto para evitar invasões de outras nuvens energéticas, era necessário condensar a forma, torná-la mais coesa, mais sólida, até podemos dizer mais concreta, real. É o desejo de ordem, organização, proteção, estruturação e quaisquer outros sinônimos que pudermos arrumar. Assim as congregações tornaram-se mais particulares, mais exclusivas e passaram a discriminar os níveis energéticos componentes da congregação.
A condensação da energia limita os movimentos da nuvem, por esta se tornar mais pesada, mas é vantajosa no sentido de proteção. Ou, em projeção maior para atacar. Pela formação da própria nuvem, ou por sua condensação para torná-la mais segura, torna-se sedenta, até belicosa, por energias que teve de renunciar ao se condensar, atacando assim, por sua formação estrutural ou por fome, outras formações, apossando-se de parte ou do todo das nuvens atacadas, formando um novo, mais complexo, mais organizado ou mais condensado formato de nuvem, que podemos até considerar, por novas e complexas entidades, estas sim com mais possibilidade de serem dotadas de consciência e vontade, tanto que atacam sabendo que só assim se sacia este desejo, o da alimentação, da complementação por algo que lhe falta. Um desejo que move e é movido pelos anteriores, um triunvirato que irá mover e dar origem a todos os demais desejos, que iremos descrevê-los logo a seguir.

Profeta do profano - IV

Tendo o Cordeiro terminado sua obra, foi descansar um instante no trono que lhe custou tanto conquistar. Lamentou durante alguns instantes, os extremos a que teve de chegar, mas era necessário, para que finalmente o Reino de Deus prevalecesse sobre as forças das Trevas malignas, para salvar a Terra.O falso profeta balançava feito pingente na ponta de uma corda. A Besta foi lançada aos Infernos, onde ficaria encarcerada junto com o Dragão de Sete Cabeças e Dez Chifres. Tudo estava finalmente tranqüilo e a construção da Nova Jerusalém terminada, estava instalado o Paraíso na Terra, sinal da vitória de Deus Pai Todo Poderoso, conhecido aqui como o Espírito das Luzes. Agora a Terra pertencia aos eleitos de Deus, os justos e os santos, junto com os humildes.
Foi quando lhe ocorreu um raciocínio assustador. Como havia utilizado todos os recursos de que dispunha, estaria vulnerável aos contra-ataques das forças malignas, pelo menos durante algum tempo. Tranqüilizou-se, ao pensar que seus súditos acudiriam ao primeiro sinal de invasão. Neste momento, a massa dos eleitos era um imenso exército, mais que necessário para se garantir a segurança.
Foi dada então, ao que foi denominado de falso profeta, uma tarefa, já que se mostrava tão ansioso a ajudar sua rainha de alguma forma. Levaram-no até próximo dos portões da Nova Jerusalém, vestido de camponês, querendo terras para plantar. O camponês entrou na Nova Jerusalém com a semente da verdade, mas a verdade que é trazida pela iluminação da mente pelo Fogo Negro. O melhor método de ruir um Império é fazendo-o de dentro para fora.
Dirigindo-se a uma praça pública, começou a gentilmente plantar as sementes. Ninguém o parou ou protestou, pois sua aparência era inocente, assim como suas ações. Da mesma forma que entrou, saiu, dizendo que ia trazer água potável, de fonte conhecida por ter trazido grandes revelações, porém jamais retornou.
O Cordeiro, um certo dia, após ter acabado todos os seus afazeres, que foram tomadas todas as decisões que precisava, foi passear pela sua bela cidade. Foi quando notou o crescimento de uma bela árvore, já com flores abundando, prestes a se transformarem em frutos. As flores pareciam-se com orquídeas, só que tinham mais pétalas, de bordas recortadas em dentes, com um tom de cores, variando do azul, ao violeta, ao negro. O perfume que exalavam era sensacional, faziam com que, quem cheirasse, sentisse se elevar, o pensamento funcionar mais intensamente. Até mesmo o Cordeiro não pode resistir aos efeitos, dos quais, num momento, pôde vislumbrar os primeiros momentos da criação. Pôde lembrar que, foi por uma arvore e seu fruto tentador, que todo pecado começou. Neste exato instante, o Cordeiro, esquecendo-se de sua condição, começou a atacar e depredar a árvore indefesa. Todos que ali estavam olhavam abismados, mas nada comentavam, com medo do que lhes podia acontecer.
Porém, como era uma árvore do fruto do Fogo Negro, cresceu mais forte e resistente, no dia seguinte. O Cordeiro temendo o que poderia acontecer, cercou a árvore com grades e guardas, para que ninguém dela se aproximasse. O Cordeiro logo perdia aquela tranqüilidade e serenidade que devia caracterizá-lo.
Tomado de pânico, que ainda assim poderia haver quem comesse do fruto proibido, decretou lei marcial, ninguém podia ficar nas ruas depois das 19 horas. Além de serem proibidas quaisquer reuniões, públicas ou privadas, para evitar que houvesse tramas contra o Cordeiro.
Mesmo sem o fruto, todos os justos perceberam que seu redentor, o Cordeiro, não era exatamente a pessoa que dizia ser. Descontentamento geral leva a protestos e seus respectivos choques com os anjos. O povo todo já estava disposto a rebelar-se por completo, contra o Cordeiro, de qualquer forma.
Quando tudo parecia desfavorável aos revoltosos, surge avançando, em direção das muralhas da Nova Jerusalém, o exército das Trevas, que foi recebido pelo povo nas portas que estes abriram. Foi ai que o Império das Luzes sentiu a força real das Trevas, apanhou feio e não tinha mais nada a fazer, senão render-se. O Cordeiro sofreu o escárnio publico, depois que todos viram sua verdadeira face, antes de ser abandonado, sem condenação, pois não era necessário.
Todos os arcanjos não puderam conter os arquidemônios. Não sem o apoio dos que foram o povo eleito, agora somados às legiões das Trevas. O Espírito das Luzes, para que seus colaboradores não sofressem, capitulou, baixou a bandeira nos pés do Espírito das Trevas. Todo o Império das Luzes deixou de existir, junto com a renúncia do Espírito das Luzes.
Tomando a administração de todos os planetas, sóis e galáxias, o Espírito das Trevas permitiu que seu irmão lhe auxiliasse, fornecendo luz e energia necessária para alguns tipos de vida de certos planetas., como a Terra, que não podiam viver sem luz.
Tornou o Espírito das Trevas a falar com seu Pai, o Universo. Pois cometera, de certa forma, os mesmos erros que seu irmão, o Espírito das Luzes, esperando um perdão de seu Pai.
O Universo sorriu e suas partículas coroaram o Espírito das Trevas. A euforia tomou conta das criaturas, de qualquer nível existencial, sem se importarem se eram notívagas ou diurnas.
Tenha isto nas mãos, como um guia básico para que aprenda definitivamente que deve tomar cuidado com as aparências superficiais, evitar ser dominado pela força e pela estupidez religiosa. Nunca se pode, efetivamente, falar contra algo que não se conhece ou se experimentou.
A tarefa é longa e árdua. Porém, compensadora. Devemos usar a faculdade da razão que somos dotados, só assim perceberemos a que fim trágico nos deixamos levar. Pode ser que realmente não haja um mundo futuro, nem sequer um Deus, para nos redimir dos erros e nos ressuscitar da morte. Tudo pode ter sido um imenso engano, pregado pela nossa mente doentia. Devemos nos curar então, exercitando a mente, ao invés do lucro fácil, da posição social, da beleza ou do poder. Pois todos fenecem e logo são quebrados por modelos novos. A mente não quebra, molda-se; a mente não cresce, desenvolve-se; a mente não morre, prolifera-se. A civilização humana passa, mas seu produto mental, concretizado, permanece, desafiando os séculos.
Eis por que sou tão tendencioso para as Trevas. Eis por que amo a Deusa da Lua Negra, Lilith, minha rainha adorada. Não me importo se ainda acredita em Jesus e no Deus Único Todo Poderoso, que o resto seja maligno e demoníaco. Haverá o tempo que tudo isso cairá diante da própria fragilidade e falta de lógica profunda.
Cabe a cada um, sem dúvida, fazer uso de seu cérebro e criar dentro dele seu universo. Ou então se acomodar, conformar-se, com as idéias prontas, servidas a granel, por pessoas que nem sabem quem você é, nem se importam, desde que esteja pensando e agindo como querem.
Dou-me por satisfeito e já estou recompensado. Fiz as memórias das Trevas com espírito livre e voluntário, sendo o mais sincero que pude. Acho que cumpri com as metas a que me propus e que agradam a meus amigos, minhas amigas e minha rainha.
Que o Fogo Negro envolva-me e recicle-me, para merecer estar nesta República sob o olhar profundo e intenso do respeitável soberano Espírito das Trevas. Que este, pelo meu trabalho, possa olhar por mim e orientar-me.

Profeta do profano - III

Eis que chega o dia do confronto entre o Espírito das Trevas e o Espírito das Luzes, quando o Universo, Pai de ambos e equilíbrio harmônico, julgará qual dos dois filhos foi mais bem sucedido na missão que lhes confiou.
O prazo, que o Universo concedeu a seus dois filhos para que provassem suas capacidades, está preste a se consumir. Foi marcado que ambos deveriam mostrar seus feitos, quando a data de aniversario do surgimento de cada sol e cada planeta do Cosmo, coincidissem em um único instante.
Sabendo que não lhe restava muito tempo, que seus seguidores estavam divididos e que estava bem próxima a vitória do Espírito das Trevas na Terra, o Espírito das Luzes lançou um ataque de grandes proporções em ambos os níveis, tanto o material quanto o espiritual, pela reunificação total do Império das Luzes e a destruição do que consideravam o Mal, que estava representado pelo Espírito das Trevas. Deu a este ataque o nome de Apocalipse.
Entretanto, nunca o Espírito das Luzes foi superior ao Espírito das Trevas, por mais que este acreditasse. Como este ataque estava tomando dimensões assustadoras e estava mesmo com a intenção de aniquilar qualquer oposição, o Espírito das Trevas convocou prontidão imediata de todos do Conselho das Trevas e dos espíritos das Trevas, pois a guerra estava declarada, embora todos preferissem evitá-la. Mas como o Império das Luzes tomou a iniciativa, cabe ao povo das Trevas o direito de defender-se e manter o Império das Luzes nos seus limites, senão a harmonia necessária para a existência do Universo estaria quebrada.
Embora pelo livro sagrado do Império das Luzes, chamado de Bíblia Sagrada, este Império fosse considerado mais forte e poderoso, portanto vencedor da luta, a verdade aqui se encontra, já que as Trevas não sentem necessidade de enganar ou falsear os fatos, já que esse é um método usado pelo Império das Luzes para garantir sua soberania sobre as mentes fracas dos humanos. Sabemos que as ações têm mais significado do que as palavras e justamente o Império das Luzes tem feito exatamente aquilo que condena.

Este é o livro das Trevas que será chamado de Crítica Sagrada que, como o próprio nome diz, as únicas coisas sagradas são as capacidades de criticar , de pensar e duvidar, capacidades que toda raça superior inteligente e racional deve ter.
Eu estava no exílio que a sociedade me trancafiou, junto com outros loucos por terem a audácia de reconhecer a superficialidade do Império das Luzes e da sociedade regida e controlada por eles. Ainda estava alheio a tudo, pois me concentrava em reescrever mais e melhor o Livro das Trevas.
Era uma bela manhã de domingo, com a rotineira visita de padres para realizarem a missa, a catequização e a recuperação mental sadio dos internos. Algo mudou neste dia, eu até podia adivinhar o por que. Pois os cardeais e um bispo, invadiram com uma centena de padres e freiras armados, o pátio do manicômio, sendo requisitada a presença de todos os internos. Isto foi rapidamente atendido, pois os enfermeiros e dirigentes faziam parte da sociedade normal e integrada ao Espírito das Luzes. Mesmo que não quisessem, teriam de fazê-lo ou serem metralhados friamente. Esta era a intenção daquele bispo gordo e ensebado, sentado num palanque, numa cadeira luxuosa, metralhar a todos nós, já que a loucura era sinal de possessão demoníaca, mas ele preferia dar uma chance aos internos.
Ficou claro para todos, para que tipo de missão esses santos homens representantes da Igreja vieram. Muitos começaram uma fuga desesperada, mas não havia saída. Logo foram cercados e postos a assar em uma imensa fogueira. Pude ver bem que os olhos de nossos executores faiscavam mais que as chamas, maravilhados com o poder que tinham, em prol da purificação do mundo.
Sabendo que, em breve acabaria também nas mãos destes carrascos, lancei um último e pesaroso olhar para meus amigos e enfermeiros. Foi justamente por isso que um deles me apontou, trazendo-me para perto do supremo assassino, nas vestes de um bispo.
Com presteza, armaram um cadafalso improvisado e um nó tosco em torno de meu pescoço. A forma do nó lembrou-me muito do que é usado em gravatas, embora as considere mais parecidas com coleiras humanas.
Veio o próprio canalha, para puxar a alavanca que acionaria a porta do cadafalso, debaixo de uma sombrinha de veludo vermelho, com os emblemas papais em dourado. Tudo por causa de alguns protestos dos internos, para que não se matasse o único com sanidade ali. O tumulto foi controlado pelos enfermeiros, especializados como uma tropa de choque no controle de comoções. Pela lógica, todo aquele que está no asilo, foi por causa de um mau funcionamento mental. Não poderia provar, agora que seria executado, de que fui afastado da sociedade, condenado a tal exílio, por uma conveniência: minhas obras desestruturavam o meio podre de viver da sociedade. E por uma conivência: de meus parentes em me entregar às autoridades, em troca de recompensa e prestigio social.
Meus ossos estavam para ser esticados neste estranho varal, para secar ao sol, quando a tarde feneceu, muito rapidamente. Logo chegando a noite e as sombras, parcialmente afastadas pelos holofotes elétricos, iguais aos que se usam em campos de futebol. Agora sim, minha execução virou um espetáculo circense, como qualquer execução o é.
O chão me falta. A cabeça estala. O corpo treme. Estou morto. Ainda assim posso ver que, não contentes, perfuram meu corpo inerte com suas baionetas e bebem meu sangue, atirando o resto ao fogo.
Essa é a vantagem de se ter um espírito alimentado por uma mente desenvolvida: consegue-se viver ainda mais, pela força e pela vontade. Desimpedido da casca mortal, pode-se ver melhor ainda. Como, por exemplo, ver os espíritos que rondam os mortais e os influenciam, por conselhos e orientações. Inclusive pode-se ver claramente o caminho que leva ao Império das Luzes e ao Reino das Trevas. Como bom filho sabe o caminho do lar, segui a trilha das Trevas. Dirigi-me ao primeiro comando que encontrei, para saber como estava indo a guerra. Reconheceram-me de imediato e acharam melhor pôr-me a salvo da área do front, levando-me aos comandos centrais.

A cidade fortaleza para onde me levaram era magnífica, sombria e tão receptiva quanto uma cripta, toda em granito negro. Tinha algo nela que me parecia ser familiar, como se já estivesse estado ali, como já pertencesse há muito tempo a este lugar.
Disseram-me que o nome era Ogiel, capital do reino de Gamaliel, cuja reinante não era outra que a minha adorada deusa da Lua Negra, Lilith. Obvio que eu me sentia à vontade, pois estava bem próximo de minha venerada rainha. Quantas coisas que passaram na minha cabeça para agradá-la e impressioná-la! Eu desejei inclusive lutar, mesmo sem treino, contra o Império das Luzes, pela bandeira dela. Mas me reservaram, infelizmente, a escrever o que foi omitido no Apocalipse.

Profeta do profano - II

A influencia da Arte no gênero humano fez-se sentir. Os sacerdotes iluminados, tomando isso como uma ameaça contra seu Deus, o seu poder e o seu templo de culto, começaram uma investida de infâmia, terror e assassinatos. Pela execução dos considerados infiéis, por julgamentos sumários e arbitrários, seja por confinamento ou por torturas atrozes. Em defesa dos seus atos e da sua Santa Cruzada, alegariam que se tratava de limpar o mundo das imundícies e do mal, algo aparente apenas aos olhos de censura destes. Chamavam, aos que praticavam a forma de duvidar e questionar dogmas de fé como arte, de bruxos. Estranhamente as mulheres foram as mais martirizadas, pois os sacerdotes, além de quererem satisfazer suas neuroses primitivas, queriam satisfação sexual. Mas como não podiam, por causa do celibato, então projetavam ao fogo, como consumação carnal dessas mulheres. Estes sacerdotes atingiam o clímax, diante de tanto poder fatal. Isso se repetiria, em outros tempos, com tantas outras religiões, que acham pregar o verdadeiro e único deus e que estão fazendo um favor à humanidade, exterminando esses pecadores. Estes sacerdotes fariam favor maior, se exterminassem a si mesmos.
Se um deus é tão fraco que necessita da crença dos homens e da força deles para vencer seus inimigos, então não é um deus verdadeiro. Se um homem utiliza um deus como desculpa aos seus assassinatos, então não é homem mas um animal da mais baixa forma de vida.
Não é para menos que as Trevas não tenha representantes, nem profetas, nem sacerdotes para falar em nome delas, muito menos obrigar o Homem a acreditar nelas. Os únicos com direito a cooperar, já foram eleitos e ocupam o Conselho das Trevas, o máximo que um homem pode fazer é seguir suas certezas, se estas forem razoáveis, se assim for seu desejo, terá seu lugar nas Trevas.
Os homens cercam-se de divindades e leis, ou para justificarem tudo que ocorre em sua volta, ou seus atos contra o mundo e seu semelhante. Quando, na verdade, isso é produzido pela sua cabeça. Deus não existe a não ser pelo Homem, o Homem é deus de si próprio, idealizado em virtudes e condutas que, para o homem comum, seriam difíceis de serem realizadas todo dia. Portanto fica mais fácil e cômodo atribuir ao seu ente divino, tais características e então, omitir-se de tais condutas e virtudes.
O mesmo ocorre nos pesadelos, malefícios e seres demoníacos, os homens os fazem de acordo com as coisas que assustam ou são condenáveis, são formados dos vícios e dos pecados. Estes são os demônios do Homem, que no fundo é ele mesmo. Isto é o seu desejo interior intimo que não apaga, que desacata leis, que nega as virtudes e as condutas exemplares, que contradiz a deus. Ou seja, se um homem tem certas condutas e pratica certas virtudes, é um homem santo e justo, por graça divina. Se, pelo contrário, comete crimes, abusos e destruição, é um homem possesso e maléfico, por obra demoníaca. O homem não é responsável, nem possui vontade própria, senão por desejos dos deuses ou demônios, estes criados por sua própria projeção. Como se o homem fosse um simples fantoche vazio, a espera de uma mão para mover seu corpo e uma cabeça externa para pensar por ele.
Portanto não é estranho então o Homem construir sociedades, leis, autoridades e governos aos milhares, visto que não tem vontade própria ou direcionamento, delega aos outros o poder, a responsabilidade e a paternidade. Consequentemente, fica submisso e conformado às vontades dos governantes, suportando a carestia e a repressão institucionalizada por estes.
Embora o que faz a Nação é seu povo e este é composto de cada um e de tudo homem, o povo ou parte dele é o primeiro a sofrer em nome da Nação ou do governo dela, já que estão intimamente ligados. Ser do Governo significa ser a Nação, ser todo o País, eles são os pais do povo, amantes e esposos da Nação. Cada vez mais o homem é castrado da vontade e da consciência, que são deixadas aos cuidados de instituições reacionárias, que são as melhores em castração e em servir de consciência alheia. Ainda bem que um dia o Homem se libertará ao perceber o ridículo da situação.
Não cabe a ninguém, senão à própria pessoa, descobrir o certo e o errado, baseado nas suas vivências, experiências e conclusões dela mesma. Esses são conselhos e considerações minhas, que cada um as avalie e de justiça a elas, visto que não sou conselheiro, nem sequer de mim mesmo.
Este é o Livro da Compreensão, melhor que o Livro do Esplendor, por que não ofusca a ninguém. Melhor que o Livro da Criação, porque o criador é o Homem. Melhor que a Sagrada Bíblia, este Livro da Compreensão é a alma da Sagrada Critica. Como o nome diz, o sagrado encontra-se em criticar, inclusive este texto e os dogmas de fé de toda religião. Por valorizar o Homem, sua mente, sua vontade, venerar sua alma, capaz de criar deuses, este livro deve encontrar uma boa receptividade e benção do raciocínio e da criatividade humana. Não determina os fins, oferece os meios. Continue cada leitor, em sua vida, a acrescentar e melhorar essa sabedoria, acrescentando algo mais em si, por si, em seu nome, honra e gloria, caro leitor.
Eu louvo o Universo e todas as formas de vida, da mais simples a mais complexa. Soube por bem o Universo fazer suas partículas construírem os seres e faze-los evoluir. Quanto maior era seu grau de evolução, mais distintos eram, como a segunda obra de um artista que supera a anterior. Usando outras combinações, formando outros órgãos, acrescentando elementos aos poucos nas criaturas, a partir da mais elementar. Enquanto mais distintos eram, mais frágil e arriscada era a vida dos seres, que logo precisavam unir-se os pares diferentes, para tornarem-se fortes e darem continuidade à espécie.
Os seres que, começavam a organizar grupos, também demonstravam um acréscimo de inteligência, para saberem como e de que forma poderiam sobreviver. Então, de tão distintos, logo seriam separados em macho e fêmea, seriam tão inteligentes, que sabiam que eram iguais e indispensáveis para unirem-se e gerar filhotes.
Então, os seres mais evoluídos iniciaram sua colonização pela terra, resultados das melhores obras do Universo, mais inteligentes e completamente distintos, a ponto que era impossível confundir o macho com a fêmea. Tão inteligentes, que pelo menos um dominaria a terra, pela inteligência e engenhosidade, não pela força. Todos os felinos, os répteis, os pássaros, os peixes, os símios, contavam com tribos formadas pelos seus descendentes mais evoluídos, capazes de raciocinar, produzir, armar-se e construir suas cidades.
Das tribos símias, originou-se a raça humana, que veio a dominar a terra sobre as outras. Embora não fossem os mais inteligentes e fortes, foram os únicos a sobreviver dentre as raças inteligentes, poucas outras sobreviveram. As raças que houve, o Homem as aniquilou, mas é provável que ainda existam escondidas, em algum local do planeta. Isso foi há tanto tempo, que nem temos conta. Só são achados os restos mortais de homens pré-históricos, nenhum outro de outra raça evoluída. Ou os homens antigos, propositadamente, ocultaram a existência dessas raças, cujos sinais estão presentes nas imagens divinas; ou estas outras raças inteligentes souberam como ocultarem os seus mortos e as suas existências.
Eu louvo toda forma feminina dos seres, mais ainda a mulher, a fêmea humana, por ser esta a mais bela, perfeita e sensual forma feminina existente. Feitas pelas essências mais refinadas do Universo, abençoadas com charme e elegância. Ser sagrado pelo seu sexo, pois o Universo criou a distinção de sexo para que haja evolução da vida e da inteligência. Por isso foi dado à mulher um templo, donde novas gerações terão origem e fará a humanidade uma raça inteligente, merecedora da preferência dada pelo Universo. Templo ao qual devemos sacramentar com a inebriante cópula e sacrificar, numa explosão, parte de nossa carne e energia. A mesma explosão que cria planetas, ocorre dentro do templo da mulher, escuro e profundo como a noite, poderoso e sagrado como o Universo.
Enquanto o homem é a loucura pelo poder e dominação, a mulher é a razão, a sabedoria do Reino e da soberania merecida. Por isso, é dada à mulher a propriedade, de gerar vida e de representar a morte. Sendo dado ao homem, a incumbência de causá-la, com suas guerras. Ao homem, as armas, para garantir sua liderança acima dos outros e da mulher. Ela, que lhe atribuem como portadora da morte, pelo pecado de Eva que, desarmada, vence milhões, pelos seus olhos e suas palavras. Mulher é motivo de matar, como também de exceder os limites do possível para ofertar algo a ela. Muitos ofertam sua fé, outros riquezas, alguns mais extremados, a vida. Ela, que ergue impérios, fortalece heróis, desafia igrejas, segue seus caminhos, um passo de cada vez, como um felino caminha na noite.

Profeta do profano - I

A partir de então, iniciou um embate mais forte entre o Espírito das Trevas e o Espírito das Luzes, por causa da inveja que o Espírito das Luzes teve, ao ver que o Conselho das Trevas foi formado de seres que tinham se elevado até uma existência em espírito, antes que os seus. Mais ainda quando outros seres de outros planetas, semelhantes a Terra, foram se juntando, ao descobrirem a chave que permite entrar nos reinos dos corpos astrais. Tratou então, o Espírito das Luzes, de começar a criar seus homens santos, profetas e messias, tanto para converter os demais seres da terra a seu favor, quanto para elevar estes escolhidos às esferas de existência superior.
Para que toda a terra seguisse a estes escolhidos não seria, certamente, pelas ações benevolentes que tais acreditavam praticar. Pior seria que, os malefícios seriam atribuídos aos homens, aos espíritos e ao Conselho das Trevas, quando o mais razoável seria a própria conseqüência das ações humanas, incentivadas ou não pela loucura dos profetas iluminados. Estes, tão confusos entre si, que mal reconheceriam aos seus colegas. Cada qual, chamaria por um nome a seu modo, o Espírito das Luzes, de Deus único e verdadeiro, perseguindo tantos outros pela mesma ousadia, guerreariam entre eles mesmos pela confusão e loucura que acomete o fervor dos homens das Luzes, tal como mariposas em torno da chama.
Causaria então uma grande admiração os lobos, os gatos, os mochos, os ratos e os morcegos e tantos outros seres, que uma fogueira não mereça mais atenção do que a noite que os cercam. Com a liberdade que lhes é peculiar, vão quando precisam, quantas vezes forem necessárias, perto do fogo, para secarem-se e no mesmo instante, voltarem ao seu lar na noite, sem tropeçar ou errar o caminho.
Pobre do tolo homem que, uma vez iluminado pela luz, voltar seus pés para a noite. Sua mente esclarecida não aceita a profundidade e a extensão da noite, mesmo diante da luz. Cega seus olhos, desconsidera ser possuidor de uma mente, de uma vontade e de liberdade, uma vez que animal também é.
Com a mesma tolice, com que trata sua luz, traça tratados e regras para legislar as trevas, achando que o oculto pode ser facilmente cercado por leis humanas mesquinhas, quando as Trevas eram anteriores a tudo, mais extensas que a luz, mais profundas que os olhos. De tábua em punho, volta cambaleante como exausta mariposa para seu lugar, a fonte de energia que necessita, volta para a luz e para a fogueira, trazendo seu traçado do oculto e das Trevas. Tantas são as coisas que lhe caem na cabeça, que tenho que dize-las uma por vez, mas são, muitas vezes, somadas e recaídas de uma só vez sobre este incauto e prepotente homem.
Primeiro: ao ver a chama do fogo, a verá mais brilhante do que se lembra, por um mero fenômeno fisiológico animal, porém tomando este fenômeno como advertência e ira divinas, se prostrara ao chão e se arrependera (se não se matar), esquecendo ou negando ou destruindo sua obra oculta, seu tratado das Trevas.
Segundo: desacostumado a viver e andar sem o auxilio de lanternas, seus pés o traem, podendo faze-lo cair e morrer aos pés da fogueira, ou dentro dela, o que será tomado por seus companheiros como um sinal da misericórdia divina que castiga os impuros e preserva os justos do mal que estes carregam.
Terceiro: diante de uma narrativa tão fantástica sobre o oculto e as Trevas, os companheiros do pobre homem sentem-se ofendidos, ou seu deus negado, armam-se de tochas ou de tições como armas divinas e executam o infiel impiedosamente, sadicamente, tantas vezes quantas as neuroses primitivas assim achar necessárias.
Quarto: os companheiros deste, tão tolos quanto ele, acham que a obra do oculto e o traçado das Trevas operado por ele, tem um certo de verdade. Sob as orientações dele, iniciam brincadeiras com o oculto, acreditando nessas fantasias, que mudarão suas vidas, suas riquezas ou seu destino depois da morte. Na qual descobrirão, tarde demais, de se tratarem tão somente de brincadeiras infantis sem efeito algum.
Quinto: aceitando e operando com o que acreditam ser as leis das Trevas, cometerão despropósitos, que falam alto na moral humana, logo serão saqueados e destruídos por cruzados, provindos de outras fogueiras. Como fiéis da Luz, ficam próximos um dos outros, para espantar as Trevas e o mal, como um exército de facção, reacionária e irracional.
Sexto: aceitando, porem operando longe das vistas dos seus familiares e cometendo abusos em nome das Trevas, pelas leis que os homens traçaram, os espíritos das Trevas envergonhados com a tolice dos homens, revelam-se aos seus olhos primitivos. Com espanto e horror, reagem, já que não correspondia nem um pouco com que suas tolas leis apregoavam. Logo fogem para a fogueira mais próxima, para arrepender-se e negar as Trevas. Não obstante, nunca pertencesse às Trevas ou às Luzes, apenas que, como animais mamíferos e pretensamente racionais, preferem a felicidade quente, iluminada e superficial das Luzes.
Sétimo: tendo, ainda assim, continuado com suas ignomínias em nome de algo que estão muito longe de conhecer, pouca atenção dando aos avisos dos espíritos das Trevas, como se fossem donos dos espíritos e do destino, sobre o qual recairá a conseqüência dos próprios atos. Eliminar-se-ão uns aos outros, pelas próprias mãos, movidas por sua loucura de controlar as Trevas. Deste fato tomarão conhecimento, ainda que tardio, seus antigos familiares, que se regozijarão em nome de deus, que fez cair sua divina justiça sobre os pecadores infiéis.
Oitavo: este serve para aquele que, resistindo a tudo isso e ainda continuar seus crimes, em nome do que não pode controlar. Eis que os espíritos das Trevas farão uma audiência, para julgar a este e sentenciar. Não o espírito, uma vez que ainda é pequeno, porém precioso para seu Pai. Ele o fará cair no julgo dos que sofreram, pela loucura cometida em nome do oculto. Saberá então com a existência de uma vida é tão preciosa e cara demais para ser privada. Mesmo os seres inferiores, ao seu grau de evolução, onde os homens gostam de se colocar acima, para esquecer que são tão animais e bestas, quanto outro animal qualquer, sujeito a virtudes e erros da mesma grandeza.
Nono: movidos pelo ódio, por terem sido afastados do seio dos seus familiares, pelas doutrinas que acreditavam poder comandar as coisas ocultas e os seres das Trevas, começam as mesmas cruzadas e o mesmo terror, característicos do fanatismo dos profetas iluminados, coisa que em nada ajuda a humanidade e aumenta a infâmia contra as Trevas.
Décimo: abençoado seja por sua prudência e lembrança de não ser mais que um simples homem, tomará suas toscas leis das Trevas e as comparará com as leis das Luzes, dentre as existentes, reveladas aos profetas iluminados. Constatará, surpreso que não são diferentes, uma vez que ambas foram feitas pelo homem. Disso perceberá, embora confuso, não se abaterá, guardará a derrota da sabedoria humana diante do oculto, tanto das Trevas quanto das Luzes, pois Verdade alguma pode ser escrita impunemente, por qualquer autor que seja.
Este décimo merecera atenção, pois não se abaterá diante das adversidades, permanecendo com grande interesse em saber então no que acreditar, a que seguir. Culpando-se por causa da ignorância de respostas que poderia dar ou arriscar, sentindo-se muito árido, irá ao único lugar aonde alguém iria, quando precisa meditar. Longe, o máximo possível de tudo, andando enquanto suportasse, acabando por chegar em meio ao deserto que precedia um grande lago, bem próximo a um monte escarpado. Um lugar que, em outras eras foi o local onde Lilith, junto ao seu Conselho das Trevas, elevou-se pelo poder do fogo negro, o que tornou este lugar tal qual é. Logo a noite chega e com ela o frio, manda o bom senso que se procure abrigo, para proteger-se e dormir até o inicio do dia. Quis a coincidência que escolhesse justamente aquela caverna, onde Lilith e Samael passaram sua noite de gloria.
Nas paredes da caverna, Lilith escreveu suas memórias, para nunca deixar que o fato fosse esquecido, para que sempre que ali passasse, pudesse alegrar-se em recordações gratificantes. Este homem citado, o décimo, vendo as inscrições, põe-se a tentar traduzi-las e compreende-las, pois estavam na língua familiar de Lilith, uma língua original da qual muitas outras surgiram, como a deste homem. Muito do que havia lá foram transferidas aos seus herdeiros, memórias estas, uma parte encontra-se neste livro. Muita coisa foi esquecida e até escondida, por que algumas eram muito íntimas, não poderiam ser citadas a qualquer um, outras eram melhores para o gênero humano que fossem esquecidas, ou a sede de destruição que o homem tem, as subverteria para seus interesses escusos.
Uma vez traduzidos os escritos, suas mensagens trariam grande alegria e satisfação, não por responder a todas as questões, nem se pretendia tal presunção. Eram apenas opiniões de grande sabedoria que, como tais, podem ser de grande auxílio. Como um ensinamento básico do qual, cada um, segundo as possibilidades e necessidades que a razão tenha, pode ser melhorado e aperfeiçoado. Uma obra é isso, não é de forma alguma sagrada ou um dogma a ser conservado hermético à passagem do tempo, das gerações e das descobertas. Mesmo o mais privilegiado visionário jamais poderia supor até que grau evoluiria as gerações vindouras. Tais escritos, por tantas condições exigidas para seu entendimento, pediam um trato delicado, ensinando o recomendável e guardando o indizível pelos motivos já ditos anteriormente.
Naquela noite, a lua estava oculta, era noite de lua nova. Mesmo nosso décimo homem não pretendendo ser um sacerdote das Trevas, uma vez que só as Luzes precisam deles, foi-lhe concedido paz, nessa paz pode afogar suas neuroses primitivas e, somente então, foi visitado por Lilith.Envolta por seu fogo negro, tal qual veste cerimonial, trouxe uma solução muito interessante para o homem:
- Inquietação, tormenta e insatisfação diante das regras. Não é castigo, tão pouco vergonha, é um privilegio saber duvidar e criticar, apontar as falhas e os erros, procurando uma solução melhor e mais justa. Muitos dentre os homens fizeram isso, transformando e inovando o jeito de ser, estar, ver e agir no mundo de tantas formas sutis ou explicitas. Isso tem lógica e é venerável, visto que tudo foi feito do Verbo dos deuses, estes o torcem, invertem, pintam, modelam ou esculpem, refazendo o Verbo, refazendo todo um mundo a ser visto. Isto se chama Arte, são os feiticeiros do verbo e da forma, são poetas, pintores, saltimbancos, escultores e modeladores do barro que dão forma, como deuses, a criaturas. Mas os autores a deixam livre, para viver na cabeça dos admiradores de sua obra, de acordo com a compreensão individual. Ao invés de responder e repreender o ceticismo, pergunte, questione e faça sua questão transformar-se em arte, que caiba a cada um que a vir, dar a resposta à sua dúvida. Quanto melhor for sua dúvida, sua arte, mais próximo de nós estará, sem precisar de leis, proteções ou sabedorias fajutas acerca de nós, do oculto, das Trevas.
Tal é como deve ser, o homem aberto às experiências e a experimentos, para ser distinto dos animais, para ser engrandecido por sua arte, para evoluir e realmente poder afirmar sua superioridade sobre os seres. Não pela força, pela loucura, pelo fanatismo, pela ganância. Até que compreenda isso, enquanto o Homem fica confuso diante de sua real função, caiará na desgraça causada por suas mãos. Crie quantas leis quiser, faça-se rei de seus semelhantes, extraia quantas riquezas quiser, sacrifique a terra e a vida, quantas vezes achar-se no direito. Depois não adiantara pedir a um poder divino superior para aliviar o castigo, pois tem a capacidade de ver e raciocinar, sabe que a ruína é conseqüência dos seus atos. Acha, sentado em seu opulento e portentoso trono, que está isento, mas qual carrasco escapa de cortar-se com o próprio machado? Sê digno de sua inteligência e capacidade de visão, não se deixe enganar mais por palavras bonitas e falseadas, não siga mais os profetas, não se submeta a reis. Tudo que aqui se encontra na terra, à terra pertence, sem divindade ou hierarquia, isso só existe enquanto se continuar cego e tolo, achando que isto o tornará forte e protegido das adversidades. Cabe à Arte e aos artistas, evitarem isso.
Esses foram os ensinamentos que o décimo passou aos seus herdeiros, que mais do que antes, valorizaram toda a forma de arte. Vieram bem a tempo para equilibrar o lado nefando do Homem.