sábado, 9 de maio de 2009

Lírios sangrentos - VI

Então, o que vale a pena, por qual meio devemos levar nossa vida se é tão inútil e cheia de enganos acerca da real intenção de tais deidades por nós? Já que, de qualquer forma, teremos que ser devorados pela morte e só depois viver com nossos deuses, que irão conviver conosco nessa relação simbiótica eternamente, eles nos digerindo e nos mantendo inteiros ao mesmo tempo, por que nos perturbamos tanto com as atitudes e as separamos entre boas e más, se isto não é sincero? Qual é a verdade senão uma boa mentira em que se acredita e pela confiança se dá o valor de verdade? Já que não se difere o casto do libertino, todos deveremos morrer, por que então não viver todas essas maneiras de ser, sentir o mais que puder o prazer tanto das virtudes quanto do vício?
Justamente porque tanto os homens quanto as deidades precisam se justificar a si e a seu outro dependente, já que a existência de ambos seria tão vazia sem uma projeção que estabeleça a realidade como algo concreto, que só é perceptível aos sentidos, por meio dos quais satisfazemos nossos desejos de prazeres, por meio desses objetos, dessas crenças e atitudes humanas. Ou seja, o real é uma mera produção de determinados desejos e necessidades que, ao estarem satisfeitos, acarretam no prazer e no alívio de, com isso, sentir que estão vivos e justificando sua presença neste espaço hipotético.
Até mesmo aqueles que buscam a renúncia a tais sentimentos e objetos materiais o fazem na satisfação de justificar a própria existência. Baseados na crença, acreditam que se provando, privando, recusando, renunciando ao mundano, demonstram forca e coragem, mesmo porque nesta renúncia, as reações biológicas proporcionam uma sensibilidade maior pela ausência desse material. Não negam o material, mas sim o valorizam, por causa de tal sensibilidade mais desperta, mesmo não o desejando, acabam vendo-o com mais esplendor que qualquer outro acostumado a tais objetos. Além do que, ao torná-los proibidos, os tornam mais desejados, conduzindo à sensações de prazeres ainda maiores que tinham ao usá-los.

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