sexta-feira, 8 de maio de 2009

Memórias de Lilith

No principio era o sujeito e dele veio o verbo, pois verbo algum faz sentido se não há quem o profira.
Já havia o Universo que, como único, habitavam nele milhares de partículas. Destas, nasceram o Espírito das Luzes e o Espírito das Trevas. Do choque entre eles, explodiu a vida no Universo que, para que continuasse o equilíbrio, separou-os em dimensões diferentes, que não aquela onde nasciam as galáxias.
Das partículas que originaram as galáxias, vieram os seres, cada qual ao seu planeta, todos formados por este planeta de sua essência particular. Todos, ao seu tempo, tiveram seu momento de glória.
Ora, ocorreu ao Universo que a extensão de planetas e de seres era tão grande que muitos lhe escapavam ao equilíbrio e se extinguiram, sendo portanto, necessário pedir ajuda aos seus filhos, o Espírito das Luzes e o Espírito das Trevas. Mas, por causa de que cada ser fora formado pelas partículas do Universo, era-lhes dado uma consciência. Cabia então, a cada Espírito, conquistar de pleno acordo o apoio dos seres.
Das conquistas que cada um fez, merece o destaque a conquista do terceiro planeta, de um sistema solar, da galáxia que se chama Via Láctea, por ser como leite ao Universo: cheio de vitalidade e energia. Por menor que fosse das outras galáxias, se distinguia pelas riquezas e pelos seres que até então existiram. Dentre os planetas que havia em torno de seus sóis, este era como uma pérola encontrada entre dunas marítimas. Então, não foi sem mérito que lhe foi reservado a importância de ser a fronteira final entre as Luzes e as Trevas: dele partiria e a ele retornaria o domínio de cada um dos Espíritos, visto que o duplo círculo é o símbolo do Universo.
No entanto, os seres mais evoluídos resistiam ante a compreensão. Ocorreu ao Espírito das Luzes que deveria então formar um igual a estes, só que formado de uma parte de sua essência. Usou o barro, misturando a água e a terra do planeta, deu-lhe forma, secou-o no fogo do planeta, mas o sopro a dar vida à criatura veio do Espírito.
Isso era satisfatório, pois o domínio do Espírito das Luzes neste planeta estava vivo e encarnado, melhor marca de território não há do que a vida e a palavra dita por esta vida, sobre sua origem. Foi-lhe dado o nome de Adão e foi considerado como sendo o primeiro homem, embora já houvessem tantos semelhantes a ele, que eram considerados pelo Espírito das Luzes como simples animais inferiores. Havendo esquecido de sua origem e da origem igual, tanto de Adão quanto dos outros animais semelhantes, o Espírito das Luzes pôs esta criatura acima das outras, gerando a desigualdade. Como Adão não podia deixar de ser diferente de seu pai, gerou discórdia entre os animais semelhantes. O Espírito das Luzes, para mantê-lo longe deles e não acabassem fazendo ruir o marco vivo do Espírito das Luzes, este utilizava seus poderes, criando a repressão.
Isso era completamente inaceitável para as partículas, que ficaram agitadas, vendo seus seres criados igualmente, disputarem a realeza da superioridade sobre seus iguais. Quando as partículas ficam agitadas, o Universo fica atormentado, como um lago ondula pela simples queda de uma gota na superfície. Sentindo a insatisfação do Universo, o Espírito das Trevas pôs-se então a criar algo, que seria mais perfeito que o homem, porém feito da essência das Trevas e das essências antagônicas ao homem. Enquanto este foi formado pelo sopro das Luzes, cuja sabedoria não vai além do obstáculo, esta viria das Trevas, cuja sabedoria vai além das Luzes, ultrapassa o obstáculo e trespassa, chegando ao mais profundo. Enquanto o homem foi modelado do barro, esta foi esculpida em pedra, talhada pelo relâmpago, enquanto foi do fogo que o homem se formou. Porque a pedra é superior ao barro, tanto que está acima e ao redor para contê-lo, porque o relâmpago é superior à água e ao fogo, pois não pode ser apagado nem detido, a não ser com esforço tremendo. Foi lhe dado o nome de Lilith, pois seu primeiro passo em vida foi numa noite de lua nova, durante o sono mais longo dos seres incautos e do tolo homem, Adão. Como mulher, ficou conhecida sua essência, por reconhecer de antemão, que não era a única, tão pouco superior às demais fêmeas dos demais seres. Na verdade, seu Pai, o Espírito das Trevas, avisou-a logo que o brilho de seus olhos flamejou:
- Tu és melhor que o homem, mas mesmo assim igual a ele, com talentos e falhas. Teu dever é deter o homem em sua loucura, como a pedra detém o barro, repreender as paixões e fraquezas do homem, como o relâmpago diante do fogo e da água. Sobretudo, como filha das Trevas, deve lançar a duvida e a critica contra a sabedoria superficial do homem e das Luzes, enquanto tiverem a ousadia, a petulância e a pretensão de porem-se acima de tudo e todos os seus iguais.
Encolhendo-se perto de uma tosca fogueira, estava Adão, que não conseguia dormir e entender porque uma noite pode estender-se tanto. Achava que o fogo o manteria a salvo das Trevas e manteria sua voz próxima de seu Pai, o Espírito das Luzes. Como toda criatura arrogante, que se contenta com a felicidade superficial da luz, por esta fornecer-lhe calor e visão, tremia de impotência ante ao frio e densidade das Trevas, que não cessa de requisitar a argüição dos seres inteligentes.
Mais ainda nesta noite, que tinha agora um ser vivo para representá-las e melhor ainda, pois além de ser mulher, era filha do Espírito das Trevas, nascida no signo da lua nova, Lilith, a dúvida em forma carnal tentadora, a crítica em olhos flamejantes sensuais. Adão ao enfrentar a simples presença de Lilith frente aos seus olhos, aproximando-se dele, altiva e magistral, com passos flutuantes, vinda das Trevas da noite, tomou-a como sendo um demônio, como muitos dentre aqueles que seu Pai, o Espírito das Luzes, lhe advertiu cautela. Ora, instruído por seu Pai, Adão quis combater esse demônio com suas próprias armas: fogo para combater fogo. Porém Lilith, que foi talhada na pedra pelo relâmpago, não iria temer as chamas de uma mera tocha. Visto que sua arma não fazia efeito, Adão achou prudente tentar uma aliança com ela por enquanto, até que numa distração, pudesse submete-la a seu julgo.
Quando Lilith estava ao seu lado, Adão percebeu que era uma mulher perfeita, um corpo mais evoluído e melhor que as fêmeas dos seres semelhantes a Adão. Foi somente então que passou por sua cabeça a idéia de que ela poderia ser a tão prometida companheira, presente de seu Pai, o Espírito das Luzes.
Lilith porem não pôde suportar a idéia de deixar Adão se deliciar da maneira opressiva de amar dele. Nem sequer passou por sua cabeça a idéia de deixá-lo usufruir suas carnes tão precocemente. O vento noturno fez sentir ainda mais sua fúria ao repreender Adão:
- Longe de mim, besta humana. Por que me toma, para querer me possuir como se fosse um fruto de árvore, a se oferecer à primeira mão que se lança? Não vês como sou tua igual, como tantas outras e mereço o mesmo respeito que nutres por ti? Pois bem, animal infeliz! Que fique sabendo que sou Lilith, filha do Espírito das Trevas e não será de ti que farei gerar os meus, por causa de tua ignorância. Não é o único ser que possui cabeça, nem tão pouco és o primeiro homem. Lançarei minha geração longe da tua, com outro qualquer que saiba reconhecer o Universo, o equilíbrio entre as Luzes e as Trevas, assim como a igualdade de todos os seres. Da nossa geração virá aquela que porá abaixo teu Império das Luzes, tuas crenças superficiais e o coloque no plano que lhe é devido. Estarei presente em teu meio, a partir desta noite, como em toda noite de lua nova. Mais ainda quando a terra opor-se no caminho do sol, escurecendo a lua, para açoitar tua consciência e de tua geração, diante das Trevas da noite prolongada. Assim será até que seus filhos te julguem e se envergonhem ao descobrir que tipo de casa tu construíste para os herdeiros do Império das Luzes!
O Espírito das Trevas, vendo que isso foi dito pelos lábios de sua filha, sem ajuda, ficou orgulhoso e permitiu que a sabedoria dela lhe desse asas, a fim de buscar seus iguais, entre os seres. Ao chegar nas margens de um grande lago, a oeste do Éden de Adão, chamado de Mar Morto, Lilith ganiu sua mágoa para as montanhas, o deserto e o lago. Cantava e dançava amargurada de uma dor tão tocante, que logo muitos seres apareceram para consolá-la. Mas Lilith prosseguia, cantando.
Notando que muitos seres compartilhavam de sua dor, deixou que eles falassem. Estes, com a ajuda do espírito das Trevas, disseram em uma única língua, uníssonos.
Lilith juntou-se a esses seres e junto com eles iniciou um povoado de grande sabedoria e riqueza, cultivada no espírito crítico.
Novamente, o solitário Adão chamou por seu Pai no dia seguinte, pois não podia esquecer Lilith. Pedia ao seu Pai que ela voltasse, pois a desejava muito. O Espírito das Luzes sabia que não conseguiria, mesmo que tentasse, ordenar para que Lilith voltasse, sem o consentimento dela ou do Pai dela, o Espírito das Trevas, pois a Luz não pode andar em seus próprios passos, necessita da sombra, para caminhar e permitir o descanso dos seres.
Por isso, fez seu filho dormir e tirando uma parte da costela, fez uma outra mulher, que por vir do ventre do homem, seria submissa a este, já que a cabeça ergue-se acima do ventre e lhe ordena, cabendo ao ventre, alimentar e servir de apoio à cabeça. Por estas características, o Espírito das Luzes a chamou de Eva e a apresentou a Adão como sua posse, a mulher que lhe geraria filhos e obedeceria humildemente seu marido, como também daria conta sozinha da evolução e maturidade dos filhos de Adão. Isso era agradável para ele, mais ainda que estar com Lilith, podia fazer de Eva tudo aquilo que Lilith não era e ter igual satisfação ao ter com Eva no leito. Tanto, que Lilith não seria mais que uma sombra de Eva na cabeça de Adão, algo que seria amargamente lembrado, a falsidade deste conceito, nas noites longas de lua nova e nos momentos em que, o sol ou a lua, for oculto pelo manto da terra.
Chegado o momento em que todos têm seu amadurecimento pleno e suas conseqüentes mudanças, Eva nos desvarios que uma grávida é cometida, andou pelo Éden de Adão, até um fruto lhe despertar o desejo. Sem dar conta que o fruto era feito de Luz, comeu um pedaço e levou outro a Adão, que ocupado demais para dar atenção a sua esposa, instintivamente levou o fruto até a boca e comeu-o, sentindo um gosto familiar. Foi então que percebeu ter comido do fruto de Luz, da árvore que o Espírito das Luzes proibira a ambos de comer. Colérico, disse à sua mulher:
- Não sabes o que fez, Eva? Fez-me comer da carne de meu próprio Pai! Acaso somos deuses para comer a Luz como fruto e alimentarmo-nos dela? Escondemo-nos rapidamente, para que não acabemos sendo devorados por ela!
Mas como uma aranha sente na mais fina teia a passagem do vento, o Espírito das Luzes sentiu e já viu tudo. Fez um soldado seu expulsar Adão e Eva do Éden e que agora tirassem da terra, o sustento das frágeis vidas deles. Passariam muitos anos em gerações, até que seus herdeiros pudessem corrigir o fardo do erro ao qual Adão e Eva condenaram seus filhos.
Já que o Império de Adão estava fadado ao engano, ao erro, muito opostamente seriam os herdeiros que viriam de Lilith e das Trevas.

Ao chegar o dia da sua maturidade plena, seu Pai o Espírito das Trevas, foi conversar com sua filha, Lilith. Encontrou-a cercada de amigos, mas nenhum deles tomou a mão ainda da bela Lilith, não houve ainda um que transpassasse seus umbrais. Como todo pai preocupado com uma filha sem pretendente, o Espírito das Trevas adensou-se em um formato e, sentado, dirigiu estas palavras a Lilith:
- Hoje devia ser o dia da sua glorificação, mas nem alegre parece estar. Ainda não sabe que, como mulher, por mais perfeita, ainda tem falhas e lacunas que só podem ser preenchidas por um homem? Como espera amadurecer, sem que te cedas por uma noite inteira, a partilha do teu leito ao companheiro? Vá, que seus convidados a esperam e que tua sabedoria possa lhe habilitar encontrar, aquele que tanto precisa seu corpo e alma, entre eles.
Ao sair de sua gruta, a festa animou-se mais, os seres todos começaram a lhe render homenagens. Não faltou ter aqueles que, cometidos excessos, postavam-lhe à frente, como galos adiante de uma galinha, a se exibir. Tal comportamento jamais prova a maturidade de ser algum, faniquitos e ataques de masculinidade deste tipo só são aceitáveis entre crianças. Dispensava os dotados de grande força, pois eram burros demais para lerem seus olhos. Desprezava os que se fazem de sábios, pois nada tinham a lhe acrescentar. Pouco lhe valia os formosos que perturbam o coração das fúteis, pois como as flores, fenecem pela fragilidade.
Por causa de sua natureza, Lilith não se contentava facilmente, logo o tempo esgotaria e sua maturidade ficaria incompleta. O Espírito das Trevas, seu Pai, pôs a mão no fogo, enquanto a outra tomava uma serpente do deserto para que, juntando os elementos, nascesse Samael, a serpente do fogo negro, que devora o dia. Fê-lo humano e vestiu-o com as areias do deserto. Pois a areia resiste ao tempo sem perder talentos, mesmo não tendo a beleza das flores; o fogo de uma festa para que nunca haja a sombras das rugas de um rabugento; uma serpente para ter o sangue frio ante o perigo. Conduziu-o para a clareira e o fez misturar-se entre os convidados. Ninguém o conhecia ou de onde vinha. Mesmo não dizendo nada, pois como serpente detestava tagarelices, despertou grande fascínio das outras mulheres, pelo seu olhar e riso, de quem guarda muitos segredos. Não há nada mais lascivo que um mistério guardado nos olhos e mais maliciosos que um segredo seguro em lábios sorridentes.
Um dos convidados, dentre os exibidos, não gostou quando percebeu que perdia o domínio da festa para um estranho, que nada tinha de especial, não era alto, forte, belo ou sábio. Cheio de inveja, avançou para expulsá-lo da festa, se possível da região. Com a graça sinuosa da serpente que tinha, fez com que a própria força do oponente o derrotasse. Samael então era um guerreiro que vencia o inimigo de mãos desarmadas, técnica assombrosa que ainda não se vira igual.Mas um dentre os convidados que se faziam de sábios debochou:
- Lutar só serve para aparentar valentia e incitar violência irracional entre bárbaros.
Sibilando sua língua bifurcada, qual faca de dois gumes aguçada, Samael pôs-se a responder:
- Tal é assim como tagarelar é para frouxos e covardes que querem cercar o mundo inteiro dentro da sua linguagem.
Palavras que não pretendiam a verdade ou o controle do pensamento alheio, que fazem então cada um raciocinar e entender com acharem melhor, coisa que aos ouvidos vem como o sussurro dos ventos, cantando pelas frestas das rochas.
Logo seguiu a chacota dos seres que tinham muita beleza, por terem visto sua língua bifurcada, chamando-o de lagarto grande e linguarudo. Samael dobrou-se e pegou um escudo grande, derrubando as frutas que ali estavam, poliu sua superfície embaçada e colocou diante dos seres dotados de beleza. Vendo o próprio reflexo, apaixonaram-se, qual Narciso, por si mesmos, mas como não podiam ter e dominar o objeto amado, logo a desilusão desfigurou alguns e o desespero lançou ao fogo, outros. Tal como flores que, apesar de multicores, logo murcham quando uma sombra as cobre, já que estão ocupadas demais com sua beleza, para moverem-se e resistir aos contratempos, para melhorar sua vida.
Venceu a força bruta com a força inteligente, a sabedoria mascarada com a sinceridade critica, a beleza ofuscante com o reflexo da realidade.
Não sabendo porque, Lilith admirou este homem, algo incrível lhe acontecia, mas sua cabeça hesitava ante a necessidade de uma explicação. Por que não conseguia deter os pés, que teimavam em aproximá-la dele? Por que seu coração não estava mais em seu corpo, mas pulsando em sua volta, como um animalzinho de estimação? Por que seus olhos quase lacrimejavam, enquanto uma trovoada atacava sua coluna? Antes mesmo de conhecer Samael, este já era seu marido; antes de tocá-lo, já o sentia em si; antes de deitar-se, já o leito lhe era familiar. Lilith tomou Samael, que ultrapassou pelos umbrais da carne dela, por toda a noite.
A união não foi honrada somente com a consumação carnal entre eles. Em cada enlace de Samael em torno de Lilith, não era a dor da posse que a invadia, algo em si vibrava de êxtase na alma, que sentia a alma de Samael em cópula com a alma dela. De tanto prazer, uma energia emanava em chamas, que eram diferentes do fogo comum vermelho que consome a matéria; estas eram negras, mais poderosas que as vermelhas, pois além de consumir a matéria, consumiam o espírito. Muito que ainda festejavam, fugiram de medo, eram de um tipo miserável que se faz passar por adorador das Trevas, mas ao primeiro sinal de revelação delas, caem de joelhos e se escandalizam.
Os poucos seres inteligentes e animais que permaneceram, logo sentiram como é doloroso e amargo o fogo negro, qual brasa ardendo em todo o corpo e como vinho tinto ácido e venenoso, fluindo nas veias.
Ao sair de sua caverna, junto de Samael para conhecer seus ministros, amigos verdadeiros e leais, chegou do leste um corvo, grande como uma coruja, forte como águia, inteligente como só um corvo poderia ser. Pousou no ombro de Lilith que; por obra de seu Pai, o Espírito das Trevas; de sua língua desenrolou-se um papiro, que continha a noticia da perdição de seu rival, Adão e da sua desgraça, por causa dos filhos que teve com Eva, a serviçal dele, já fora do Éden, nestas palavras testemunhadas pelo corvo:
- O Deus de Adão formou de uma de suas costelas outra mulher de nome Eva, para fazer-lhe companhia. Eva, já grávida, comeu o fruto da Luz, comendo assim da carne deste Deus e fez com que Adão também cometesse o mesmo erro.Deus sentindo o erro e a culpa em suas crianças, com sua carne em seus ventres clamando por justiça, expulsou-os do Éden, deixando-os à própria sorte. Por ter sido alimentado pela Luz, como também por estar fora do Éden, o feto de Eva desenvolveu-se muito rapidamente, dois meses antes da expulsão e sete depois, sendo portanto considerados carnais os sete últimos.
Foi assim que, na noite do sétimo dia do sétimo mês, que veio a nascer o primogênito que foi chamado de Caim, cujo significado é: aquele que veio do pecado original.
Depois deste, somente sete anos depois, no nono dia do nono mês, nasceu Abel que significa: o preferido da Luz. Assim Caim logo teve que partilhar o rebanho e a colheita com Abel, a quem cabia a melhor parte, uma vez que era o preferido. Abel tratava dos carneiros e das árvores frutíferas, Caim tratava dos bodes e das ervas rasteiras. Como não podia competir materialmente com Abel, Caim se esmerou em ter uma mente privilegiada com raciocínio e reflexão. Em suas considerações, começaram a surgir dúvidas, a respeito da unicidade como homem de seu pai, a respeito da existência do Deus dele, perguntava-se para quem esse Deus mostraria a importância da sua obra em detração a outras atribuídas ao demônio.
Entre seus bodes e cabras, perambulando entre as montanhas, como se perguntasse a elas, com os olhos, qual a razão de tanto mistério. Por causa de uma cabra desgarrada, desceu até um vale, até então proibido por ser considerada morada de demônios, lá ficou conhecendo outras tribos, outros povos e homens que, evidentemente, eram como ele.
Satisfeito, com uma serie de questões resolvidas provisoriamente, quis partilhar com seu irmão a descoberta. Este, porém, preferiu matar-se, diante do simples fato de haver outros homens que não seu pai ou outros deuses que não o seu. Adão em loucura igual à de Abel, atribuiu a culpa a Caim, que foi banido e amaldiçoado. Caim, por mais que estivesse magoado, logo esqueceu da injustiça paterna, pois foi morar junto aos povos que descobrira e criara forte amizade.
Finda as noticias, Lilith disse então aos ventos:
- Rejeitou-se a herança da estupidez de Adão, porque Caim foi conduzido pelas Trevas e com a vontade que possui, pelo uso do intelecto, concordou com o que via, o que revela que Caim, apesar da progenitura, é um dos nossos.Será bem vindo sempre entre nós, quando necessitar de morada, por ter feito na geração de Adão, o que não poderíamos fazer senão indiretamente. Ainda esta noite, ele já tem lugar garantido no Reino de meu Pai. Tu, corvo, mais ainda, será como um dos reis.

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