sábado, 9 de maio de 2009

Profeta do profano - IV

Tendo o Cordeiro terminado sua obra, foi descansar um instante no trono que lhe custou tanto conquistar. Lamentou durante alguns instantes, os extremos a que teve de chegar, mas era necessário, para que finalmente o Reino de Deus prevalecesse sobre as forças das Trevas malignas, para salvar a Terra.O falso profeta balançava feito pingente na ponta de uma corda. A Besta foi lançada aos Infernos, onde ficaria encarcerada junto com o Dragão de Sete Cabeças e Dez Chifres. Tudo estava finalmente tranqüilo e a construção da Nova Jerusalém terminada, estava instalado o Paraíso na Terra, sinal da vitória de Deus Pai Todo Poderoso, conhecido aqui como o Espírito das Luzes. Agora a Terra pertencia aos eleitos de Deus, os justos e os santos, junto com os humildes.
Foi quando lhe ocorreu um raciocínio assustador. Como havia utilizado todos os recursos de que dispunha, estaria vulnerável aos contra-ataques das forças malignas, pelo menos durante algum tempo. Tranqüilizou-se, ao pensar que seus súditos acudiriam ao primeiro sinal de invasão. Neste momento, a massa dos eleitos era um imenso exército, mais que necessário para se garantir a segurança.
Foi dada então, ao que foi denominado de falso profeta, uma tarefa, já que se mostrava tão ansioso a ajudar sua rainha de alguma forma. Levaram-no até próximo dos portões da Nova Jerusalém, vestido de camponês, querendo terras para plantar. O camponês entrou na Nova Jerusalém com a semente da verdade, mas a verdade que é trazida pela iluminação da mente pelo Fogo Negro. O melhor método de ruir um Império é fazendo-o de dentro para fora.
Dirigindo-se a uma praça pública, começou a gentilmente plantar as sementes. Ninguém o parou ou protestou, pois sua aparência era inocente, assim como suas ações. Da mesma forma que entrou, saiu, dizendo que ia trazer água potável, de fonte conhecida por ter trazido grandes revelações, porém jamais retornou.
O Cordeiro, um certo dia, após ter acabado todos os seus afazeres, que foram tomadas todas as decisões que precisava, foi passear pela sua bela cidade. Foi quando notou o crescimento de uma bela árvore, já com flores abundando, prestes a se transformarem em frutos. As flores pareciam-se com orquídeas, só que tinham mais pétalas, de bordas recortadas em dentes, com um tom de cores, variando do azul, ao violeta, ao negro. O perfume que exalavam era sensacional, faziam com que, quem cheirasse, sentisse se elevar, o pensamento funcionar mais intensamente. Até mesmo o Cordeiro não pode resistir aos efeitos, dos quais, num momento, pôde vislumbrar os primeiros momentos da criação. Pôde lembrar que, foi por uma arvore e seu fruto tentador, que todo pecado começou. Neste exato instante, o Cordeiro, esquecendo-se de sua condição, começou a atacar e depredar a árvore indefesa. Todos que ali estavam olhavam abismados, mas nada comentavam, com medo do que lhes podia acontecer.
Porém, como era uma árvore do fruto do Fogo Negro, cresceu mais forte e resistente, no dia seguinte. O Cordeiro temendo o que poderia acontecer, cercou a árvore com grades e guardas, para que ninguém dela se aproximasse. O Cordeiro logo perdia aquela tranqüilidade e serenidade que devia caracterizá-lo.
Tomado de pânico, que ainda assim poderia haver quem comesse do fruto proibido, decretou lei marcial, ninguém podia ficar nas ruas depois das 19 horas. Além de serem proibidas quaisquer reuniões, públicas ou privadas, para evitar que houvesse tramas contra o Cordeiro.
Mesmo sem o fruto, todos os justos perceberam que seu redentor, o Cordeiro, não era exatamente a pessoa que dizia ser. Descontentamento geral leva a protestos e seus respectivos choques com os anjos. O povo todo já estava disposto a rebelar-se por completo, contra o Cordeiro, de qualquer forma.
Quando tudo parecia desfavorável aos revoltosos, surge avançando, em direção das muralhas da Nova Jerusalém, o exército das Trevas, que foi recebido pelo povo nas portas que estes abriram. Foi ai que o Império das Luzes sentiu a força real das Trevas, apanhou feio e não tinha mais nada a fazer, senão render-se. O Cordeiro sofreu o escárnio publico, depois que todos viram sua verdadeira face, antes de ser abandonado, sem condenação, pois não era necessário.
Todos os arcanjos não puderam conter os arquidemônios. Não sem o apoio dos que foram o povo eleito, agora somados às legiões das Trevas. O Espírito das Luzes, para que seus colaboradores não sofressem, capitulou, baixou a bandeira nos pés do Espírito das Trevas. Todo o Império das Luzes deixou de existir, junto com a renúncia do Espírito das Luzes.
Tomando a administração de todos os planetas, sóis e galáxias, o Espírito das Trevas permitiu que seu irmão lhe auxiliasse, fornecendo luz e energia necessária para alguns tipos de vida de certos planetas., como a Terra, que não podiam viver sem luz.
Tornou o Espírito das Trevas a falar com seu Pai, o Universo. Pois cometera, de certa forma, os mesmos erros que seu irmão, o Espírito das Luzes, esperando um perdão de seu Pai.
O Universo sorriu e suas partículas coroaram o Espírito das Trevas. A euforia tomou conta das criaturas, de qualquer nível existencial, sem se importarem se eram notívagas ou diurnas.
Tenha isto nas mãos, como um guia básico para que aprenda definitivamente que deve tomar cuidado com as aparências superficiais, evitar ser dominado pela força e pela estupidez religiosa. Nunca se pode, efetivamente, falar contra algo que não se conhece ou se experimentou.
A tarefa é longa e árdua. Porém, compensadora. Devemos usar a faculdade da razão que somos dotados, só assim perceberemos a que fim trágico nos deixamos levar. Pode ser que realmente não haja um mundo futuro, nem sequer um Deus, para nos redimir dos erros e nos ressuscitar da morte. Tudo pode ter sido um imenso engano, pregado pela nossa mente doentia. Devemos nos curar então, exercitando a mente, ao invés do lucro fácil, da posição social, da beleza ou do poder. Pois todos fenecem e logo são quebrados por modelos novos. A mente não quebra, molda-se; a mente não cresce, desenvolve-se; a mente não morre, prolifera-se. A civilização humana passa, mas seu produto mental, concretizado, permanece, desafiando os séculos.
Eis por que sou tão tendencioso para as Trevas. Eis por que amo a Deusa da Lua Negra, Lilith, minha rainha adorada. Não me importo se ainda acredita em Jesus e no Deus Único Todo Poderoso, que o resto seja maligno e demoníaco. Haverá o tempo que tudo isso cairá diante da própria fragilidade e falta de lógica profunda.
Cabe a cada um, sem dúvida, fazer uso de seu cérebro e criar dentro dele seu universo. Ou então se acomodar, conformar-se, com as idéias prontas, servidas a granel, por pessoas que nem sabem quem você é, nem se importam, desde que esteja pensando e agindo como querem.
Dou-me por satisfeito e já estou recompensado. Fiz as memórias das Trevas com espírito livre e voluntário, sendo o mais sincero que pude. Acho que cumpri com as metas a que me propus e que agradam a meus amigos, minhas amigas e minha rainha.
Que o Fogo Negro envolva-me e recicle-me, para merecer estar nesta República sob o olhar profundo e intenso do respeitável soberano Espírito das Trevas. Que este, pelo meu trabalho, possa olhar por mim e orientar-me.

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